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18/02/2009 13h15

O show "épico" do Faith No More no Rock in Rio II
Luiz Felipe Carneiro

O show

Seis anos após estremecer a Cidade do Rock, o Rock in Rio aportou novamente... no Rio de Janeiro. Problemas políticos fizeram com que a segunda edição do festival ocupasse o Estádio do Maracanã ao invés do descampado de Jacarepaguá. Dessa forma, o Rock in Rio perdeu muito do seu charme (recuperado dez anos depois, de volta a Cidade do Rock em sua terceira edição), mas o elenco escalado para o festival era de respeito. Além da banda mais famosa do mundo àquela época, o Guns n' Roses, nomes de peso como Prince, George Michael, Santana, INXS e até mesmo New Kids On The Block iriam fazer a festa no então maior estádio do mundo durante nove noites.

Bem antes de Jimmy Cliff subir ao palco do Maracanã (substituindo Gal Costa) na tarde do dia 18 de janeiro de 1991, a cobertura da imprensa já comia solta. Artistas escalados, desistências de última hora, problemas estruturais do Estádio do Maracanã, montagem do palco, cachês dos artistas... Aliás, com relação aos cachês, Guns n' Roses e Prince levaram a maior bolada - 500 mil dólares cada um. E o menor cachê pago para um artista internacional foi 20 mil dólares. E adivinha para quem foi?

Vinte mil dólares é um valor nada desprezível. Mas se o Faith No More imaginasse a catarse que iria provocar no início da noite do dia 20 de janeiro de 1991, no Estádio do Maracanã, certamente, teria pedido mais.

Para explicar o que foi o show do Faitn No More na segunda edição do Rock in Rio, passo a palavra para o colega André Forastieri, que assinou a resenha do show na edição da revista Bizz que foi para as bancas em fevereiro de 1991: "Não existe absolutamente nada, nem de longe, parecido com o Faith No More. O som deles é uma mutação imprevista, um frankenstein composto de hard rock, hardcore, hip hop; progressivices épicas na linha Rush-ELP e música de festa californiana. Quem tinha (ou tem) alguma dúvida sobre a originalidade do FNM, precisava estar no Maracanã na noite de domingo".

O show do FNM, para usar uma palavrinha que os seus fãs conhecem muito bem, foi realmente épico. Mas, apesar das 117 mil pessoas presentes naquela noite (o recorde da edição), muitos problemas aconteceram. Para começar, cerca de três mil pessoas ficaram do lado de fora (com ingressos na mão) porque não tinha mais como entrar gente no estádio. O corinho "sequestra e mata" entoado em homenagem a Roberto Medina (que havia sido sequestrado em 1990) reverberou para dentro do Maracanã. O Barão Vermelho, que abriria os trabalhos, desistiu em última hora, alegando tratamento diferenciado por conta dos engenheiros de som. E Robert Plant (que vinha, dizem, com Jimmy Page a tiracolo) também desistiu, culpando a Guerra do Golfo (?!?). Billy Idol, que havia feito um show correto na noite anterior, acabou substituindo o vocalista do Led Zeppelin aos 45 do segundo tempo. O som ruim também foi um eterno problema do festival não exclusivo às bandas nacionais. E como se não bastasse, um cheiro de mijo insuportável fez com que o maior estádio de futebol do mundo se transformasse na maior privada a céu aberto do planeta.

O Faith No More, em especial, ainda tinha mais um problema pela frente. O Hanoi Hanoi (que substiutiu o Barão) fez um show rápido e passou meio que desapercebido. Os Titãs, por sua vez, colocaram o Maracanã para pular com um show baseado nas ótimas músicas do álbum "É Blesq Blom", que havia sido lançado em 1989, e isso sem contar com as porradas de "Cabeça Dinossauro". Billy Idol, com a sua experiência, já tinha provado na noite anterior que sabia cativar um público, ainda que estranho a sua música. O Guns n' Roses nem se fala. Provavelmente 116.999 pessoas das 117 mil presentes estavam lá para ver Axl Rose e companhia.

O pepino maior, de fato, estava nas mãos de Mike Patton (vocal), Jim Martin (guitarra), Bill Gould (baixo), Roddy Bottum (teclados) e Mike Bordin (bateria). O Faith No More já tinha três excelentes álbuns no currículo ("We Care a Lot", de 1985, "Introduce Yourself", de 87, e, principalmente, "The Real Thing", de 89), mas a explosão do conjunto no Brasil somente aconteceu poucos meses antes do Rock in Rio, com a então recém-nascida MTV, que veiculava incansavelmente os videoclipes de "Falling To Pieces" e "Epic".

Tudo bem, as duas canções faziam grande sucesso no país, mas daí fazer um show para uma platéia composta por pessoas de camisetas pretas com um revólver e umas rosas desenhadas, sedentas pelos berros de Axl Rose em "Welcome To The Jungle"? Aí já era um pouco demais...

Mas não para o Faith No More. Com um ar de "não estou nem aí", Mike Patton e companhia, simplesmente, engoliram a privada, ou melhor, o Maracanã. Quem já conhecia a banda, nem precisou assistir mais ao Guns n' Roses. Quem não conhecia, saiu do Maracanã discutindo quem havia se dado melhor: a banda que embolsou 500 mil ou a que enfiou 20 mil dólares no bolso.

A energia do Faith No More era impressionante. Mike Patton tinha "espasmos" momentâneos e parecia estar cantando as suas músicas pela última vez. A entrega era absoluta e uma cena até chegou a cansar. No final de cada uma das canções, Patton se deitava exausto no palco. Do início, com a faixa de abertura de "The Real Thing" ("From Out Of Nowhere") até o encerramento no bis - sim, o Faith No More agradou tanto que teve direito até a um bis, exclusividade das bandas que encerravam as noites do festival - com a então inédita "Easy" (aquele velho sucesso dos Commodores), o Faith No More mostrou que aquelas duas canções na MTV não eram fogo de palha.

Em uma hora de show, o grupo norte-americano apresentou músicas que mais pareciam sucessos (e algumas até eram, apesar de pouco conhecidas do público brasileiro), como "We Care a Lot", "Introduce Yourself" e "The Crab Song". Esta última, inclusive, foi dedicada a Pelé, que teve o seu nome berrado por Patton durante toda a música. Várias canções de "The Real Thing" também foram incluídas no repertório, como a faixa-título, "Zombie Eaters", "Surprise! You're Dead!", a instrumental "Woodpecker From Mars" e a balada jazzy "Edge Of The World".

Claro que "Falling To Pieces" e "Epic" também fizeram parte do roteiro. E, com relação a elas, o Faith No More utilizou uma estratégia arriscada, mas que acabou dando muito certo, ao incluí-las logo no início da apresentação. Até mesmo porque a canção que transformaria o Maracanã em um barril de pólvora estava prevista para ser, oficialmente, a última da apresentação. "War Pigs", clássico do Black Sabbath, pode ser considerado um dos momentos mais emblemáticos da história do festival. O público cantando, a banda se acabando no palco (com destaque para o baterista Mike Bordin) e Patton... Bem, esse dispensa maiores comentários. Com a sua presença de palco, mais parecia um artista com 30 anos de carreira...

Para finalizar o texto, mais uma vez, fala quem conhece: André Forastieri. "Resumindo: o Faith No More é inteligente, dançável e tem um puta ataque. Seria o melhor show do festival, não fosse por alguns problemas no som (os teclados, com exceção do piano elétrico, queimaram a dois terços do show; e o guitarrista Jim Martin ficou sem retorno no meio de "War Pigs"). Mesmo assim, foi um massacre."

"Massacre". Essa é a palavra. Massacre! Coisa que o Maracanã não via desde os duelos de Zico e Roberto Dinamite.

Abaixo, "Epic" gravado durante o show no Rock in Rio de 1991:



Comentários
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    19/11/2009 12:04:22ALESSANDRO GUISEMembro SRZD desde 19/11/2009

    EU ESTAVA NESTE SHOW(PARA MINHA FELICIDADE) E ME LEMBRO DESTA CATARSE COMO SE O SHOW TIVESSE ACONTECIDO NO FIM DE SEMANA PASSADO. O FAITH VOLTOU PARA UMA APRESENTAÃ?Ã?O NO MARACANAZINHO E EU ESTIVE LÁ NOVAMENTE, ALGUMA DÃ?VIDA, NOVA CATARSE. PARA FINALIZAR UM DOS MELHORES SHOWS QUE JÁ VI NA MINHA VIDA. NO SHOW DO MARACANÃ? MIKE PATTON E CIA COLOCARAM AXEL ROSE E OS BABACAS DO GUNS NO CHINELO.

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    09/03/2009 10:25:29Wallace Ferreira da SilvaAnônimo

    Cara, sou de origem humilde e infelizmente não pude ir aos shows do Faith no Brasil, mas comprei 3 vinis e acompanhava tudo em rádios e revistas. Os caras eram simplesmente fantásticos e era incrível o que realizavam no palco. São ao mesmo tempo agressivos e sensíveis de acordo com a música que executam. Seria um presente maravilhoso para o mundo a volta do Faith no More e também um resgate a um estilo único.

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    19/02/2009 19:33:57mere dos santosMembro SRZD desde 03/01/2010

    Quem eu gostaria de ver de novo é George Michael esse sim,vale apena vem de novo ver sempre. volta George Michael no brasil e encanta como so voce saber fazer.beijossssssss

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