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23/02/2009 19h22

Williamson: da origem anglicana à ideologia de direita
Antonio Carlos Ribeiro

O bispo conservador Richard Williamson, que chegou ao país em 2004 e pertence à Fraternidade Sacerdotal Pio X, deixa a Argentina esta semana, após ser expulso pelo governo da presidenta Cristina Kirchner. Os lefebvristas integraram o movimento conservador do episcopado católico romano, inspirado no arcebispo francês Michel Lefebvre e articulado na Associación Civil La Tradición.
 
Para as autoridades, a presença de Williamson no país era comprovada por sua relação de trabalho com a referida associação. O governo Kirchner invocou o artigo 62 da lei de Migrações que permite cancelar o visto de residência, "independentemente do tempo e categoria, quando o estrangeiro tenha mentido sobre as razões que motivaram a sua concessão".

Nascido na Grã-Bretanha, Williamson foi pastor anglicano, converteu-se ao catolicismo, integrou-se à linha conservadora de Lefebvre, ordenou-se bispo em 1989, dirigiu o Seminário da Fraternidade em Winoma, Estados Unidos, e transferiu-se para a Argentina com a finalidade de promover seminários e cursos culturais.

Lefebvre manteve boas relações com a Igreja Católica argentina durante o Concílio Vaticano II. Assumiu postura reacionária às reformas do Concílio Vaticano II, criticando particularmente o esquema de liberdade religiosa da encíclica Dignitatis Humanae e da Declaração Nostra Aetate . Na primeira, formulou a visão teológica de direita para firmar o pilar da intolerância, enfatizando que não há direitos para o erro e legitimando a rejeição a outras confissões. Na segunda, incomodou-se com a discriminação por motivos de raça, cor, condição ou religião, como contrária ao espírito de Cristo, rejeitando a missa nos idiomas nacionais e com o sacerdote voltado para o povo.

Foi apoiado pelo episcopado argentino conservador, presidido pelo Cardeal Antonio Caggiano, que possibilitou o acesso dos lefebvristas às Forças Armadas. Afinou-se ideologicamente com o discurso tradicionalista e antimoderno, hegemônico desde as primeiras décadas do século XX e com participação decisiva nos golpes de Estado. Organizações participaram da formação de oficiais das Forças Armadas, legitimando a doutrina da guerra contra-revolucionária e apoiando sequestros, torturas e execuções.

Caggiano foi substituído nos cargos pelo Arcebispo de Paraná, Adolfo Servando Tortolo, também lefebvrista. A doutrina militar da direita argentina apoiou-se nesta ideologia conservadora, da queda de Perón (1955) até o fim da última ditadura. O lefebvrismo foi a matriz hegemônica e modelo da conduta e dos valores dos militares argentinos. Em Lille, França (1976), Lefebvre mencionou a ditadura argentina como exemplo: "um governo de ordem, que tem princípios" e com o qual "a economia se recupera".

A partir de 1977, quando visitou Buenos Aires e se reuniu com o ditador Jorge Rafael Videla, voltou anualmente ao país, que escolheu para instalar sua organização. Esta é mantida hoje com contribuições de empresários locais, ligados à Igreja, e recebe contribuições internacionais, como as do ator Mel Gibson.

Lefebvre decidiu ordenar quatro bispos, para garantir o futuro da Fraternidade, entre os quais Williamson e outro o argentino Adolfo de Galarreta. Por causa da desobediência, o Papa João Paulo II excomungou Lefebvre e os quatro sucessores. No entanto, a Congregação para a Doutrina da Fé iniciou contatos para reintegrar a ala ultra-conservadora à comunhão com a Igreja.

A partir de 2005 os contatos passaram a ser feitos pelo Cardeal Dario Castrillón. O perdão foi negociado após diversos sinais da volta do Vaticano ao tradicionalismo, como o documento "Respostas a algumas perguntas sobre certos aspectos da doutrina sobre a Igreja", reinterpretando a Constituição Dogmática Lumen Gentium e  defendendo que a única Igreja de Cristo é a Católica Apostólica Romana.

Em julho de 2007, Bento XVI publicou o Motu Proprio Summorum Pontificum, autorizando a missa em latim e a oração pela conversão dos judeus, do Concílio de Trento (1570), em que se reza "pelos pérfidos judeus para que Deus tire o véu de seus corações, a fim de que conheçam conosco o Senhor Jesus Cristo". Essa oração foi suprimida em 1962 por João XXIII, por fomentar o ódio e as perseguições antissemitas.

O perdão aos integristas chegou no dia em que se lembrava o Holocausto e se comemoravam os 50 anos da convocação do Concílio Vaticano II. Ao que parece, o Papa não sabia que Williamson acabava de negar uma vez mais o Holocausto, como já havia feito anos atrás no Canadá, provocando escândalo e reações. A própria Fraternidade pediu que Williamson se retratasse, mas ele apenas pediu perdão pelos transtornos causados. Mesmo após Bento XVI declarar que a Shoa, (holocausto), era um crime contra a humanidade, por exigência da Chanceler alemã Angela Merkel, Williamson disse apenas que deveria estudar o tema. Por isso, a presidente argentina Cristina Kirchner decidiu-se pela expulsão.


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