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17/03/2009 12h03

Cesta Básica: Os álbuns clássicos de Marina Lima
Luiz Felipe Carneiro

Cesta Básica: Os álbuns clássicos de Marina Lima

Quando Marina Lima surgiu na cena pop brasileira, no final dos anos 70, foi um verdadeiro alvoroço. A tímida cantora carioca que tinha (e tem) o "Charme do Mundo", com a sua mistura única de pop-rock com a MPB mais tradicional, arrebatou uma legião de fãs. Com o seu estilo "cool", e uma voz bela e sensual misturada a composições inteligentes, Marina (que na época não tinha o "Lima" no seu nome artístico) gravou álbuns que até hoje são lembrados. E a Cesta Básica dessa semana vai exatamente relembrar alguns dos trabalhos mais importantes gravados por Marina Lima. A cantora teve a sua estréia no mercado com o álbum "Simples Como Fogo" (1979). O trabalho, de certa forma, foi um pouco incompreendido. Afinal de contas, as pessoas sempre demoram um pouco para digerir o diferente. Mas quando Marina Lima lançou o seu terceiro álbum, "Certos Acordes" (1981), não teve mais jeito. A "Gata Todo Dia" conquistou o seu lugar nas paradas e, se transformou na grande sensação da Música Popular Brasileira, fazendo a ponte com o que hoje chamamos de Rock Brasil. Depois, as coisas ficaram mais fáceis. E, apesar dos problemas pessoais que influenciaram a voz de Marina Lima, a cantora teve a oportunidade de gravar trabalhos brilhantes como "Fullgás", de 1983, e "O Chamado", lançado dez anos depois.


Os 4+ :

"Certos Acordes" (1981) - Impossível falar de Marina sem citar a sua parceria com o irmão Antonio Cícero. Desde o momento que a cantora surgiu, com o álbum "Simples Como Fogo", em 1979, os dois firmaram uma parceria vitoriosa. Cícero entrava com as suas bem sacadas letras, enquanto Marina elaborava as músicas. Assim, sucessos como "Chave do Mundo" e "Rastros de Luz" viram a luz do dia. O segundo disco ainda teve o grande hit "Nosso Estranho Amor", escrito por Caetano Veloso, e com a participação especial do próprio compositor. Entretanto, apesar do relativo sucesso que Marina alcançou com o seu álbum de estreia e com "Olhos Felizes" (1981), algo ainda não estava caindo bem no resultado final de seus trabalhos de estúdio. Mas com "Certos Acordes", podemos dizer que Marina se encontrou. Contando com a produção musical do guitarrista Pisca, a cantora se trancou na casa de seus pais, e fez a pré-produção do álbum. Em entrevista ao produtor Marcelo Fróes, em ocasião do relançamento de sua obra em CD, no ano de 2005, Marina afirmou: "Eu pude realmente preparar os arranjos e este disco foi aclamado pela crítica". Dessa maneira, a cantora criou o seu estilo próprio, calcado em um "pop carioca" embalado pela sua sensual voz, como pode ser ouvido em canções como "O Lado Quente Do Ser" (logo gravada por Maria Bethânia) e "Gata Todo Dia". Esta última tocou bastante nas rádios, assim como "O Charme do Mundo", considerado o seu primeiro sucesso autoral.

"Fullgás" (1983) - Em 1982, Marina soltou mais um álbum na praça. "Desta Vida, Desta Arte" trazia a mesma concepção do disco anterior, contando com a produção de Pisca, e grandes canções como "Noite e Dia", uma parceria de Julio Barroso com Lobão, então baterista de sua banda. No álbum, Marina também fez uma surpreendente releitura do clássico "Emoções", de Roberto e Erasmo Carlos. Com o disco de 82, o contrato de Marina com a Ariola terminou, e ela se viu sem o seu "santo protetor" Marco Mazzola. Contrato assinado com a Polygram (atual Universal), e Marina entrou em estúdio para gravar o que seria o grande álbum de sua carreira. Com a disco music em voga, a compositora carioca começou a se interessar por bateria eletrônica. E "Fullgás", a começar pela sua faixa-título, é todo calcado no instrumento. Contando com a produção de João Augusto, Marina se cercou de um time de craques, como, mais uma vez, Lobão, que lhe deu "Me Chama" e ainda tocou bateria na gravação da faixa; Lulu Santos, que tocou guitarra e compôs "Mais Uma Vez", ao lado de Nelson Motta; Nico Rezende, que pilotou os teclados em quase todas as faixas; e Liminha, que tocou baixo e escreveu o sensacional arranjo de "Fullgás", dando uma mostra do excelente produtor em que iria se transformar. "Fullgás" ainda trazia canções como "Mesmo Que Seja Eu" (mais um sucesso da dupla Roberto e Erasmo), "Veneno" (uma versão para a italiana "Veleno") e "Pra Sempre e Mais Um Dia". Em suma, "Fullgás" foi um divisor de águas na carreira de Marina, que, por sua vez, se tornou, presença constante nas rádios a partir de 1983.

"Marina Lima" (1991) - Após o sucesso de "Fullgás", Marina gravou mais quatro discos de sucesso pela Polygram: "Todas" (com o sucesso "Eu Te Amo Você"), "Todas Ao Vivo" (que trazia "Pra Começar", que se tornou hit absoluto por conta da novela "Roda de Fogo"), "Virgem" (da música "Uma Noite e 1/2") e "A Próxima Parada" (de "É Francesa"). Contrato finalizado e Marina (agora Marina Lima) partiu de mala e cuia para a EMI. O seu primeiro disco pela nova gravadora, "Marina Lima", talvez seja o mais bem acabado de sua carreira. Méritos para os produtores Fábio Fonseca e Liminha, que conseguiram extrair o melhor de Marina Lima e, ao mesmo tempo, elaborar os arranjos mais ricos constantes em um disco da cantora até hoje. Soando um pouco menos pop, "Marina Lima" gerou canções que mostravam a cantora um pouco mais "cool". De certa maneira, pode-se dizer que esse álbum formatou o estilo que o acompanha até hoje. Além de sua crucial importância na carreira de Marina Lima, o disco trazia grandes sucessos como "Acontecimentos" (uma das melhores composições da dupla Marina Lima / Antonio Cícero), "Não Sei Dançar" (composição de Alvin L., que Marina Lima se apropriou com tanta identidade que, muita gente, até hoje, pensa que foi a cantora que a compôs) e "Grávida", que contou com o baixo de Liminha e a bateria de João Barone. A dançante "Criança" foi outra canção que tocou bastante e ajudou a fazer de "Marina Lima" o álbum mais importante da carreira da compositora e cantora carioca.

"O Chamado" (1993)
- Dois anos depois o lançamento de "Marina Lima", a cantora voltou com mais um outro disco. João Augusto (aquele mesmo que produziu "Fullgás") foi parar na EMI e o reencontro foi inevitável. Assim, João Augusto produziu "O Chamado", e a alquimia aconteceu da mesma forma (ou até mesmo melhor) que em "Fullgás". Um pouco mais minimalista que o álbum anterior, "O Chamado", apesar de sua sonoridade um pouco mais distante do pop que fez o sucesso da cantora nos anos 80, vendeu tanto quanto "Virgem" (1987), que tinha o hit "Uma Noite e 1/2". Olhando em retrospectiva, é interessante notar que, passados 16 anos, "O Chamado" continua um álbum bastante atual, bem diferente de "Virgem" que por conta do abuso da bateria eletrônica, hoje soa um pouco datado. Das 11 faixas do disco de 1993, apenas "Eu Vi o Rei" foi escrita por Marina Lima e seu irmão Antonio Cícero. Talvez esse motivo tenha feito de "O Chamado" um álbum diferenciado, no qual Marina Lima abriu novas possibilidades para o seu trabalho. E isso pode ser ouvido em faixas como a jazzy "Stromboli" e "Deve Ser Assim" (ambas de Marina e Alvin L.), "O Chamado" (parceria da cantora com o guitarrista Giovanni Bizzotto), "Pássara II" (de Marina Lima com Fernando Vidal e Ronaldo Bastos) e "Meus Irmãos" (somente de Marina). A cantora também gravou sucessos de terceiros, como "Carente Profissional" (de Frejat e Cazuza, e constante no segundo álbum do Barão Vermelho) e "Pessoa", um hit certeiro de Dalto e Cláudio Rabello, e que se transformou no grande sucesso de "O Chamado".


Dispensável :

"Registros É Meia-Voz" (1996)
- Em 1995, após a aclamada turnê de "O Chamado", Marina Lima lançou o álbum "Abrigo", no qual, pela primeira vez em sua carreira, interpretava exclusivamente canções de terceiros. Uma turnê teria início em seguida, mas a cantora acabou tendo problemas em suas cordas vocais, que impediram a realização da mesma. Para não desperdiçar todo o trabalho que havia tido, Marina Lima foi para o estúdio e resolveu gravar uma amostra do que seria o show da turnê "Abrigo". "Registros É Meia-Voz" é exatamente o registro desse show que não aconteceu. O problema é que, de fato, Marina Lima não passava pelo seu melhor momento. E o disco, apesar de não ser tão fraco assim, é um tijolo menor na rica obra de Marina Lima. Como em um show, Marina Lima apresenta alguns antigos sucessos, como "Fullgás" (que havia sido regravada por Lulu Santos no ano anterior, com imenso sucesso, e que, na nova gravação de Marina ganhou um arranjo mais eletrônico) e "Mesmo Que Seja Eu", durante a qual, Marina chega até a apresentar os músicos de sua banda. O samba "Para Um Amor no Recife", composto por Paulinho da Viola, foi o carro-chefe do álbum, que ainda contava com canções inéditas como o rock "É Meia Voz" e a instrumental "Retorno", escrita por Marina Lima e William Magalhães para Paulinho Moska.


Em seguida, o videoclipe da música "Fullgás", constante no álbum de mesmo título, lançado em 1983.


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Comentários
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    10/04/2009 19:54:13STAnônimo

    Sissi na Sua é um dos 4+ sem dúvida.

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    20/03/2009 00:04:34Felipe dos Santos SouzaAnônimo

    Para alguns, pode ser difícil escolher "O" disco de Marina. Mas eu confesso que não tenho muita dúvida. Ã? o "Marina Lima", de 1991. A sequência "Grávida"-"Criança"-"Não estou bem certa" é absurdamente ótima. <br><br>"Grávida" é puro lirismo, aliada com um arranjo matador, com aqueles teclados de Marcio Lomiranda, imitando cordas, que dão um tom meio sinfônico pra música, junto da guitarra de Marina e da bateria de Barone, que levam a música pra frente. "Criança" é aquilo: a prova provada de que uma música pode ser melancólica e dançante ao mesmo tempo. E "Não estou..." é Marina cool como só ela sabe ser, aliado ao arranjo meio "drumembêistico", com a colaboração de Charles Gavin.<br><br> Enfim, é o que eu gosto mais. E outra coisa boa é que Marina parece, nos últimos tempos, finalmente ter deixado o caráter soturno que os discos da fase "à meia-voz" tinham, parece mais adaptada, solar. "Lá nos primórdios" é bom disco.

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