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19/03/2009 11h52

"The Bends": A obra-prima do Radiohead?
Luiz Felipe Carneiro

Uma banda que faz tanto, mas tanto sucesso, com o seu primeiro single, corre o sério risco de ser esquecida em breve e cair no ostracismo, tornando-se a eterna "banda de uma música só". Ainda bem que o Radiohead sabia disso. Após o lançamento de "Pablo Honey" (1993), do mega-hit "Creep" (que a MTV veiculou tanto que a canção quase se tornou insuportável), o Radiohead tinha dois caminhos. O primeiro, e mais fácil, seria se curvar aos modismos, e gravar uma espécie de "Pablo Honey 2". O segundo, e muito mais complicado, seria trilhar um caminho alternativo e fazer, em bom português, o que desse na telha.

Acertadamente, Thom Yorke, Jonny Greenwood, Colin Greenwood, Ed O?Brien e Phil Selway seguiram o segundo caminho. Após dois anos de intensa turnê (descrita por Yorke como uma "experiência miserável") para divulgar "Pablo Honey", havia chegado a hora de o Radiohead retornar aos estúdios. As gravações foram tensas, e a pressão, imensa, por conta do imenso sucesso de "Creep". Todos aguardavam o segundo álbum do Radiohead com imensa expectativa, mas Thom Yorke parecia não estar muito preocupado com isso.

Antes de começar a gravar o álbum, o Radiohead entrou em estúdio para testar a sonoridade desejada. E a primeira canção a ser gravada (inteiramente ao vivo, com exceção dos vocais) foi "My Iron Lung", que rendeu um EP lançado poucos meses antes do lançamento de "The Bends". A nova música já mostrava que o Radiohead não era mais o mesmo. Contando com um uso maior de teclados, guitarras distorcidas (e melódicas ao mesmo tempo) e vocais mais pesados, o Radiohead deixava o "pós-grunge" de "Pablo Honey" para trás.

O negócio da banda de Thom Yorke, naquele momento, era construir grandes canções, com estrutura e dinâmica diferenciadas. Comercialmente, "My Iron Lung" não chegou nem perto do sucesso de "Creep", mas as rádios alternativas britânicas e norte-americanas adoraram. E o Radiohead, dessa maneira, criava um estilo próprio, bem diferente do "Britpop", que tanto sucesso fazia à época, e que influenciou tantas outras bandas como Coldplay e Keane, apenas para citar as mais óbvias.

Já devidamente credenciado pela recepção ao EP, o Radiohead pôde realmente começar a pensar no seu segundo álbum. As gravações de "The Bends" começaram em agosto de 1994, no mítico Abbey Road Studios, em Londres. Três meses depois, já estava tudo pronto, e, finalmente, no dia 13 de março de 1995, "The Bends" chegava às lojas. Produzido por John Leckie, que já havia trabalhado com Pink Floyd e Stone Roses, o Radiohead misturou o rock básico de "Pablo Honey" com uma experimentação eletrônica, em canções mais complexas. Sem exagero, pode-se afirmar que a banda ganhou a sua identidade própria com esse disco. Um detalhe curioso é que o assistente de Leckie era o engenheiro de som Nigel Godrich, que veio a produzir os álbuns posteriores do Radiohead.

Em "The Bends", o Radiohead pôde colocar em um imenso caldeirão criativo as suas principais influências, como U2, Pink Floyd, R.E.M. e, até mesmo, os Pixies, sem recair em clichês. A sonoridade do conjunto era original, e isso ninguém discutia. E, mesmo adentrando em diferentes estilos musicais, o Radiohead soava novo, íntegro e coeso. As faixas mais pesadas de "The Bends", como "Just", "Bones" e "My Iron Lung" (que foi gravada novamente para o álbum) conviviam em perfeita harmonia com as lentas e atmosféricas "(Nice Dream)", "Bullet Proof... I Wish I Was" e "Street Sprit (Fade Out)". Esta última, inclusive, apesar de ter sido o último single do álbum, foi a primeira canção da banda a chegar ao top 5 do Reino Unido.

A verdade é que, em qualquer um desses casos (seja pesado ou lento), a música se casava de maneira perfeita com a voz e as letras angustiantes de Thom Yorke. E, até hoje, quase 15 anos após o seu lançamento, ainda é possível encontrar alguma novidade em "The Bends".

Mas ainda havia um terceiro grupo de canções nesse segundo álbum do Radiohead. Pela primeira vez, a banda de Thom York explorava um caminho mais experimental, com melodias calcadas em teclados repletos de texturas sonoras. O melhor exemplo é "Planet Telex", a faixa de abertura do álbum, e que foi escrita no próprio estúdio de gravação. A canção pode ser considerada uma tentativa da banda de soar um pouco mais experimental e abstrata. E, de fato, foi dessa forma que o Radiohead soou em seus álbuns posteriores.

Contudo, por mais que o Radiohead, de certa forma, renegasse o imenso sucesso de "Creep", "The Bends" gerou alguns sucessos instantâneos. "High And Dry", a mais popular do álbum e que havia sido escrita por Yorke quando a banda sequer existia, foi uma imposição da gravadora, que já queria que a canção tivesse entrado em "Pablo Honey". A politizada "Fake Plastic Trees" foi outra que tocou tanto que acabou virando tema de propaganda (ou seria o contrário?). Aliás, em "The Bends", as letras mais depressivas de Thom Yorke abriram espaço para algo mais politizado.

"The Bends" teve uma boa recepção crítica, bem superior a de "Pablo Honey". O álbum, que alcançou a quarta posição da parada britânica, ganhou nota 9 da New Musical Express, e apareceu em várias listas de "melhores do ano". Em 2006, o jornal The Observer listou "The Bends" como um dos 50 álbuns que mudaram a história da música. "Thom Yorke popularizou o falsete angustiante, em oposição ao rock do Oasis. Sem isso, não teriam existido Coldplay, Keane ou James Blunt", justificou o jornal inglês.

Em 2003, o disco foi eleito o 110º mais importante de todos os tempos, pela Rolling Stone. Três anos antes, a Virgin elaborou uma relação com os mil álbuns mais importantes da história. "The Bends" só ficou atrás de "Revolver", dos Beatles.

No verão de 1995, o Radiohead saiu em uma grande turnê, abrindo os shows do R.E.M.. Depois disso, mesmo trilhando o seu caminho alternativo, não tinha mais discussão: o Radiohead era (e é até hoje) umas das bandas de rock mais importantes da atualidade.

Após "The Bends", o Radiohead lançou "Ok Computer", tido por muitos como o melhor álbum da banda. Um dia a gente fala um pouco sobre ele. Afinal de contas, impossível afirmar qual é a verdadeira obra-prima do Radiohead...


Faixas:
1)    Planet Telex
2)    The Bends
3)    High And Dry
4)    Fake Plastic Trees
5)    Bones
6)    (Nice Dream)
7)    Just
8)    My Iron Lung
9)    Bullet Proof... I Wish I Was
10)    Black Star
11)    Sulk
12)    Street Spirit (Fade Out)

Segue abaixo o videoclipe da faixa "Fake Plastic Trees".



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