SRZD


22/03/2009 15h05

Disco: O melhor amigo do homem
Luiz Felipe Carneiro

Disco: O melhor amigo do homem | Foto: Quadell/Wikimedia Commons

Não tem muito tempo que um colecionador de discos se fartava em Nova York. Não que ele ainda não possa se fartar, mas é incrível imaginar o que aconteceu com as grandes lojas de disco da cidade. Há uns sete anos, você tinha pelo menos nove grandes lojas por lá: Virgin (duas), HMV (três) e Tower Records (quatro). Hoje, tirando as lojas menores de bairros como o Soho, você só tem as duas Virgin Megastores. E o mais impressionante: daqui a menos de três meses, Nova York não terá mais nenhuma mega loja de discos.

Já sabia que a Virgin iria encerrar as suas atividades nos Estados Unidos até o final de julho. Mas a ficha caiu mesmo há poucos dias, quando recebi um e-mail dizendo que eu deveria gastar os pontos promocionais que acumulei nas lojas da rede até junho.

Toda essa questão me fez lembrar das intermináveis discussões da faculdade de Jornalismo. "O jornal impresso vai acabar?" Se Nova York, uma das cidades onde mais se consome cultura no planeta (acho que estaria ao lado de Londres e Tóquio), não tem mais nenhuma grande loja de discos, hoje, começo a achar que os jornais impressos também poderão acabar um dia.

Será que estou errado?

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A morte das lojas de disco já era uma tragédia anunciada. Tome-se como exemplo o Brasil. Tirando os grandes magazines (e que mesmo assim não são mais os mesmos) como Fnac, Saraiva, Livraria Cultura, quais lojas de disco sobreviveram? Quase nenhuma! Ande em qualquer shopping center e terá a prova dos nove. Algumas sobrevivem, apostando em produtos (importado$$$) para um público diferenciado (leia-se: colecionadores).

Por que gastar dinheiro com, por exemplo, o novo disco do U2, se você pode baixá-lo em seu computador em menos de cinco minutos? E o principal: antes de o álbum chegar às lojas! No final das contas, quem gasta dinheiro com isso? Os colecionadores, claro. Aquele estranho tipo de gente que faz questão de ter a coleção bonitinha de sua banda predileta na estante. Espécie em extinção, diga-se de passagem.

Como colecionador e comprador compulsivo de discos, não estou aqui chramingando o fechamento das lojas de discos. Como já disse, essa tragédia era mais do que anunciada. O que me deixa triste é a constatação de como a música está sendo tratada atualmente.

Já que falei em jornal no início dessa coluna, permitam-me a terrível comparação: um álbum está sendo tratado como um jornal. Isso mesmo. Jornal que vai para a lixeira no dia seguinte. Ou, no máximo, vai servir de banheiro para o cachorro. (Apesar do quê, acho que meu cachorro não merece essas notícias da nossa política.)

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Eu me lembro quando era bem pequeno e ia para o Carrefour com a minha mãe. No final das compras quinzenais, dependendo das notas no colégio, ganhava um disco. (E graças a esses discos, hoje estou aqui aporrinhando a paciência de vocês.) O ato de comprar um disco era algo que transcendia o simples ato de consumir. Quando escolhia um vinil, sabia que aquele discão, aquela capa, aquele encarte me acompanhariam por muito tempo. Podem rir da minha cara, mas parecia que eu estava ganhando um novo amigo.

E, de fato, ganhei vários. Em meados dos anos 80, o que mais comprava era disco de rock brasileiro. Posso fechar os olhos e me lembrar do exato momento em que peguei o "Dois", da Legião Urbana, por exemplo. Fiz quatro amigos de uma vez só: Renato Russo, Marcelo Bonfá, Dado Villa-Lobos e Renato Rocha. Com o "D", disco ao vivo dos Paralamas, agreguei Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone a minha lista de novos amigos.

E foram muitos outros amigos: Lulu Santos, Arnaldo Antunes, Sérgio Britto, Frejat, Cazuza, Guto Goffi, George Israel, Paula Toller, Evandro Mesquita, Fernanda Abreu, Marcelo Nova, Dinho Ouro Preto, Humberto Gessinger, Nasi, Leo Jaime, Leoni, Lobão, Nando Reis, Rita Lee, Raul Seixas, Roger, entre vários e vários outros.

Um disco não era simplesmente um disco. Um disco era um companheiro. Amigão mesmo. Para você pular junto na alegria e chorar abraçado na tristeza. (E quantas vezes eu fiz isso...)

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Desde o advento do CD, muito se perdeu dessa relação "íntima" com um disco. O encarte ficou pequenininho, e a caixinha, além de impedir o contato táctil da capa do vinil (o mesmo que "devotamos aos maços de cigarro", como diz Caetano Veloso), quebrava na primeira queda. Mas, apesar dos pesares, ele ainda podia ser chamado de "amigo".

Agora, o que temos? Um arquivo que é baixado diretamente ao computador, que não tem corpo, não tem forma, não tem espírito, não tem nada além de informações eletrônicas. Qualquer moleque pode sair para o colégio e deixar 20 discos baixando. Quando chega em casa, ouve dois minutos de cada um e pronto. Acabou a relação. Não há mais namoro. Aliás, desconfio que não haja mais nada. Nem um beijinho na bochecha.

Aí, no dia seguinte, o moleque chega no colégio e diz: "Pô, baixei o ?Blonde On Blonde' do Bob Dylan! Muito foda!". Como se ele tivesse tido tempo (e prazer) de apreciar uma obra-prima como "Blonde On Blonde". Na certa, ouviu uma música e pronto. O seu conhecimento se transformou em algo tão superficial quanto um download. Meras informações eletrônicas... 10011001001...

Não estou aqui querendo condenar ninguém que faça download. As próprias gravadoras forçaram essa situação. Mas discordo das pessoas que tratam o disco como um jornal que você joga fora no dia seguinte.

Angus Young, guitarrista do AC/DC, em entrevista ao Telegraph, no ano passado, expôs muito bem essa questão. "Nós não fazemos singles, mas álbuns. Acreditamos que nossas canções, de quaisquer de nossos discos, devem ficar juntas", disse. Bono também foi pelo mesmo caminho: "A música se transformou em uma utilidade, enquanto que, para mim, é uma coisa sagrada."

Os dois artistas pegaram bem no ponto. Música não é brincadeira. Ela deve ser ouvida com atenção, assim como um capítulo de um livro deve ser lido. Por acaso, você lê dez páginas de um livro e tira conclusões? Vai fazer uma prova sobre esse livro? Não, né? Então, também não venha ouvir duas músicas de um disco e querer falar alguma coisa. Quem ouvir duas músicas de um disco não vai entender nada. Um álbum é que nem um livro, com início, meio e fim. Há toda uma proposta nele. Proposta essa que o artista fica, em geral, pelo menos um ano trabalhando em cima.

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Repito: não tenho nada contra quem baixa músicas pela internet. Até mesmo porque, com o atraso da indústria brasileira de discos, se você não fizer o download, terá que gastar 80 pratas em um CD importado.

E acho que quem quiser, tem mais é que baixar mesmo. De nada vai adiantar fechar comunidades no orkut. De nada vai adiantar criar mecanismos que impeçam a cópia de um CD (os dois últimos álbuns de Marisa Monte, por exemplo, vieram com um dispositivo que proibia que você passasse o CD para o seu computador, ou seja, quem comprou o disco não pode escutá-lo em seu iPod - genial, não?). De nada vai adiantar processar meia dúzia de internautas sedentos por discos...

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Solução? Acho que ainda não existe. A única certeza é que quem ainda gasta dinheiro com disco será o eterno "otário". E quem baixa (mesmo tendo dinheiro para comprar) é o "malandro".

Acho que continuarei no time dos "otários". Pelo menos, ainda continuo fazendo um bando de amigos. E posso garantir que está valendo a pena.


Comentários
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    25/03/2009 20:36:00albsAnônimo

    Muito interessante! E vale lembrar, vendo minhas estantes, o poder dessa amizade. Elas irão comigo para o céu (ou para inferno, sei lá) A diferença entre a OBRA DE ARTE (leia-se disco) e o download, é a mesma que há entre uma relação pessoal de verdade e os joguinhos de simulação. E, nunca é de mais lembrar, se o download não é da fonte autêntica, o "malandro" tem sobrenome: ladrão. E esse corre o risco de não ir para o céu de qualquer forma.

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    24/03/2009 21:24:07Marco Aurélio CoelhoMembro SRZD desde 06/01/2010

    Concordo com tudo o que vc falou. Acredito que eu também seja um "otario" que gasta rios de dinheiro com cd´s e Lp´s. Mas como disse, a cada disco que eu compro, eu faço um novo amigo, ou na piór das hipóteses, refaço a amuzade quando compro outro disco do mesmo artista.

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    24/03/2009 16:32:16simoneAnônimo

    Tenho alguns discos de vinil para vender...tens interesse? favor enviar seu email que lhe envio a listagem...fico aguardando Um grande abraço Simone

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    23/03/2009 12:29:39Pedro JuniorAnônimo

    Isso mesmo...nada melhor q comprar oh CD(no meu caso ^^)...fik olhando oh encarte...e as vezes vc compra um q não gosta na primeira vez q escuta,+ como vc comprou...vc vai escutar outras vezes pra tentar gostar...e no final aquele CD akba virando um classico pra vc... Um dia baixei o SGT. Pimenta e achei uma droga...+ comprei oh CD uma dia desses(aaaaaaa \o/ o/ <o>)...escutei com calma e hj entendo pq ele é tão falado...muito fod!...e q capa *___*

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    23/03/2009 03:29:43Felipe dos Santos SouzaAnônimo

    Eu concordo! E Pedro Henriques também disse bem: quem compra CDs, já virou, de certa forma, uma espécie de "colecionador", de "saudosista".

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    22/03/2009 23:16:21Gabi SiciAnônimo

    é verdade... não consegui me desfazer de nenhum vinil meu... desde o Balão Mágico, passando pelo maravilhoso "Pipes of Peace", do Paul Mc Cartney e pelos da Maria Bethânia e Milton Nascimento, entre outros... Todos tinham uma estória na minha vida, e era com muita insistência que eu conseguia ganhá-los... Hoje, facilmente podemos baixar qq cd, mas o "amor táctil", como diria Caetano Veloso, para alguns, ficou démodé... bjos!

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    22/03/2009 17:47:06Pedro HenriquesMembro SRZD desde 04/07/2009

    Nao peguei a epoca dos vinis, infelizmente. Mas como vivo a epoca dos cd's eu faço de tudo pra aumentar minha coleçao. Eu baixo o cd, e assim que vejo o mesmo sendo vendido eu compro. Meu irmao nao entende. Fazer oque?

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