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25/03/2009 11h08

Stevie Wonder no Brasil
Luiz Felipe Carneiro

Stevie Wonder no Brasil

Até 1995, o Free Jazz Festival já havia trazido ao Brasil nomes importantes da música como Chet Baker, Nina Simone, Sarah Vaughan, John Lee Hooker, Dizzie Gillespie, Ray Charles, entre vários outros. Mas, com todo o respeito às lendas citadas, nada poderia se comparar a um show de Stevie Wonder, que foi o principal artista da edição de 1995 do (mais ou menos) finado festival.

Stevie Wonder se apresentou no Rio de Janeiro e em São Paulo para divulgar o seu então novo álbum, "Conversation Peace". O show no Rio de Janeiro aconteceu em um superlotado Metropolitan (atual Citibank Hall), na noite do dia 27 de outubro de 1995, uma sexta-feira. A venda dos ingressos já dava uma noção da importância daquele show. Em pouquíssimas horas, as mais de dez mil entradas foram vendidas, e, claro, os cambistas fizeram uma festa sem precedentes no Metropolitan. (Não me lembro quanto custava o ingresso, mas me lembro bem de uma pessoa, na entrada do Metropolitan, com 800 dólares na mão querendo o meu ingresso...)

Acertadamente, a direção da casa de espetáculos retirou as mesas que ficavam na pista e abriu espaço para uma plateia imensa poder dançar durante o show. E, antes de o show começar, todos aguardavam ansiosos a entrada de Stevie Wonder, que faria o seu primeiro (e até então único) show no país.

Mas antes da lenda da Motown, Gilberto Gil foi encarregado de abrir os trabalhos. Já escaldado em festivais, o compositor baiano não decepcionou nos 60 minutos de apresentação a que teve direito. É época, Gilberto Gil estava lançando o seu álbum "Unplugged", no qual relia os seus antigos sucessos em versão acústica. Mas o show apresentado por Gil naquela noite, teve uma proposta bem diferente.

Empunhando a sua guitarra elétrica, e acompanhado pela mesma excelente banda do "Acústico" (com destaque para o baixista Arthur Maia e o baterista Jorginho Gomes), Gilberto Gil fez uma mistura de seu show anterior, "Parabolicamará" com o "Unplugged". Mas tudo com muita guitarra e suingue. Do jeito que as mais de dez mil pessoas queriam ouvir. Gilberto Gil cantou "Realce", "Palco", "Toda Menina Baiana", "Parabolicamará", "Expresso 2222", "Drão"... Enfim, todos aqueles seus sucessos que ninguém se importa de escutar mais uma vez.

O show foi tão rápido que, quando menos se esperava, Gil saiu do palco e os roadies de Stevie Wonder começaram a montar o palco. Ainda bem que o do Metropolitan era grande o suficiente para acomodar a grande orquestra que acompanhou Stevie Wonder. Sim, claro... Um show de Stevie Wonder que se preze tem que ter orquestra, ou você acha que um artista daquele nível iria se contentar em reconstruir as cordas de suas canções em um tecladinho pasteurizado?

E por falar em teclado, outra coisa que chamou a atenção na montagem do palco era o pia... ou melhor, o teclado de Stevie Wonder. Para quem imaginava um belo piano de cauda, o cantor norte-americano deu conta do recado com um teclado... azul! Piadas de mau gosto vindo de alguns engraçadinhos na plateia não faltaram: "Só porque ele é cego, colocaram esse pianinho azul sem-vergonha...".

Mas quando as luzes se apagaram, o "pianinho azul" era o que menos importava. Sem Stevie Wonder no palco, a banda atacou com a balançante "Dancing To The Rhythm", uma canção inédita (que veio a ser registrada no álbum ao vivo "Natural Wonder" que sucedeu a turnê de "Conversation Peace"), mas que parecia um velho sucesso. O início da canção Stevie Wonder cantou no backstage. Mas lá pelos dois minutos, quando o cantor surgiu no palco escoltado por um ajudante, o Metropolitan desabou. Certamente, as pessoas presentes, em seus inconscientes, queriam demonstrar que, mesmo sem poder enxergar, Wonder poderia sentir a energia da plateia.

E provavelmente ele sentiu. E muito, tendo em vista o apoteótico show que se seguiu. Quem imaginava que Stevie Wonder iria "jogar para a plateia", cantando apenas sucessos, teve que engolir um show redondo, com quase três horas de duração, e com repertório idêntico aos shows realizados nos Estados Unidos, na Europa e no Japão.

Após a primeira canção e o "obrigado, Rio" de praxe, Stevie Wonder atacou com "Love's In Need Of Love Today", uma de suas mais lindas baladas e faixa de abertura de "Songs In The Key Of Life", o seu álbum mais emblemático. E canções desse álbum não faltaram. Contando com essa, foram sete, incluindo algumas pérolas mais escondidas, como "If It's Magic" e "Pastime Paradise".

Na primeira metade do espetáculo, Stevie Wonder revezou algumas canções nem tão conhecidas e baladas (bem conhecidas). No primeiro grupo, entraram "Stevie Ray Blues" (uma canção instrumental escrita em homenagem ao falecido guitarrista Stevie Ray Vaughan), "Rocket Love" (do álbum "Hotter Than July", de 1980), "Stay Gold" (canção escrita para o filme "The Outsiders") e "Village Ghetto Land" (mais uma de "Songs In The Key Of Life"). Entre as mais conhecidas, e que serviram para a plateia acompanhar no coro, entraram "Ribbon In The Sky" (faixa do disco "Original Musiquarium I", de 1982, e que ganhou uma versão longuíssima, cheia de solos dos músicos e floreios vocais de Stevie Wonder), além das animadas "Master Blaster (Jammin')" (também de "Hotter Than July") e "Higher Ground" (de "Innervisions", 1973).

Na segunda parte do show, Stevie Wonder, para deleite do público, apresentou os seus grandes sucessos, como "Overjoyed" (de "In Square Circle", lançado em 1985) e "My Cherie Amour" (do álbum homônimo, de 1969). Mas o negócio começou mesmo a pegar fogo quando Stevie Wonder soltou os seus funks deliciosos "Signed, Sealed, Delivered" (do disco de mesmo ano, que saiu em 1970), "Living For The City" (de "Innervisions"), "Sir Duke" e "I Wish" (ambas do duplo "Songs In The Key Of Life").

"You Are The Sunshine Of My Life" e a empolgante "Superstition" abriram caminho para Gilberto Gil retornar ao palco e mandar um dueto com Stevie Wonder da canção "I Just Called To Say I Love You", hit do filme "A Dama de Vermelho", e que fez muito sucesso no Brasil com a versão "Só Chamei Porque Te Amo", do próprio Gil. Muita gente chiou pelo fato de Gil ter cantado em português, mas o dueto ficou interessante. O próprio Gilberto Gil, no livro "Todas as Letras", explica como veio a idéia de escrever a versão em português: "A vontade de verter veio, primeiro, porque a música era dele, Stevie Wonder, uma pessoa que eu admiro muito e com quem ter algum laço aproximativo me é prazeroso, caro e interessante: eu quis tietá-lo."

Para finalizar, Stevie Wonder mandou a balada "For Your Love", maior sucesso do álbum "Conversation Peace", que estava sendo lançado em 1995, e, para fechar com chave de ouro, "Another Star", mais uma gema de "Songs In The Key Of Life".

A apresentação de Stevie Wonder foi digna de entrar nos anais dos grandes shows internacionais que passaram por essas terras, além de ter sido mais um dos tantos shows históricos que o Free Jazz Festival nos proporcionou. Tomara que ele volte logo ao Brasil.

(E eu nunca me senti tão bem em ter recusado 800 dólares...)

Segue abaixo um vídeo de "Dancing To The Rhythm" gravado durante um show de Stevie Wonder no Japão, poucos meses antes das apresentações no Brasil.



E um encontro de Stevie Wonder com Gilberto Gil durante a passagem do cantor norte-americano pelo Brasil:



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