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26/03/2009 12h45

"Vivendo e Não Aprendendo": A obra-prima do Ira!
Luiz Felipe Carneiro

O Ira! nasceu como tantas outras bandas brasileiras surgidas no início dos anos 80. Influenciado pelo punk e pelo pós-punk, em 1980, o guitarrista Edgard Scandurra formou a banda Subúrbio que chegou a fazer alguns shows em São Paulo. Nessas apresentações, que também já contavam com Nasi nos vocais, o grupo lançou uma canção que mais tarde veio a ser de fundamental importância na história do Ira!: "Pobre Paulista".

Como as outras bandas que surgiam a mancheias na mesma época, o início do Ira (que, à época, ainda não tinha o ponto de exclamação no seu nome) também foi bastante complicado. Somente em 1983, o Ira (cujo nome foi inspirado no Irish Republican Army) foi descoberto por uma grande gravadora. O produtor Pena Schimidt viu um dos shows da banda, que na época ainda contava com Charles Gavin (na bateria, e que mais tarde foi para os Titãs) e Dino (que já tocava baixo no Subúrbio), e a contratou para fazer parte do elenco da WEA que, sob a batuta de André Midani, investia pesadamente na nova geração roqueira que ora surgia no Brasil.

Entusiasmado, o conjunto gravou o seu primeiro compacto, com as faixas "Gritos Na Multidão" e "Pobre Paulista". O single foi gravado em 1984, mas na hora do lançamento... Deu tudo errado. O disquinho acabou não saindo, porque a gravadora ficou com medo da censura com relação as duas canções. Lançadas no ano 2000, as faixas dão a oportunidade de o fã ouvir as duas únicas gravações do Titã Charles Gavin como baterista do Ira.

No ano seguinte, Dino e Gavin saíram da banda, abrindo espaço para Ricardo Gaspa (ex-baixista do Voluntários da Pátria, banda que Nasi também chegou a fazer parte) e André Jung (baterista recém-demitido dos Titãs), que se juntaram a Nasi e Scandurra. Com essa formação, finalmente o Ira! (agora já com o ponto de exclamação), em maio, lançou o seu primeiro disco, "Mudança de Comportamento", que continha o hit "Núcleo Base". Nesse álbum, o Ira! deixou de lado o punk dos tempos do Subúrbio para uma sonoridade influenciada pelo mod, que teve na banda The Jam o seu principal expoente, mas mesmo assim sem esquecer de bandas como Sex Pistols, The Clash e The Who. Apesar de ser um bom disco, "Mudança de Comportamento" não passou das 20 mil cópias vendidas na época de seu lançamento.

Em maio e junho de 1986, o Ira! entrou no estúdio Nas Nuvens para gravar o seu segundo álbum. Devido ao fracasso comercial do trabalho de estreia, agora, era tudo ou nada. Lançado em setembro de 1986, "Vivendo e Não Aprendendo" não era muito diferente de seu antecessor. O Ira! fazia questão de manter o seu estilo íntegro e não fez concessões. Obviamente, o produtor e diretor artístico da WEA, Liminha, não gostou nem um pouco.

O desejo de Edgard Scandurra era fazer um disco "ainda mais mod, mas ousado, com instrumentos sobrepostos e detalhes de mixagem", conforme disse ao jornalista Ricardo Alexandre, em entrevista para o ótimo livro "Dias de Luta - O Rock e o Brasil dos Anos 80". "Queríamos romper com aquele padrãozão de som que o RPM instituíra, com bateria eletrônica e baixo no meio, bem altos, voz ainda mais alta e tecladeira violenta. Um padrão que chamávamos de 'puta som'", disse Scandurra no livro.

Liminha, por sua vez, queria uma sonoridade que fizesse do Ira! uma banda mais popular. Nasi contou para Ricardo Alexandre como foi a chegada da banda no estúdio carioca Nas Nuvens. "Chegamos com um ar de 'Dá licença? Nós sabemos o que queremos, por favor não se intrometam'". Segundo Ricardo Alexandre, enquanto a banda queria fazer algo parecido com o The Jam, Liminha imaginava uma sonoridade mais no estilo do Rush. Ao mesmo tempo, o produtor implicava com a "desafinação" do conjunto. "Começamos a tratá-lo como o professor ranzinza da classe, virou um enfrentamento", relembrou Nasi. É Liminha restou se contentar: "Senti que não podia colaborar muito. Para ficar sentado numa cadeira, assistindo, seria melhor não fazer".

As gravações chegaram a ficar tão tensas que, em dado momento, o grupo foi para um estúdio em São Paulo, e a produção ficou dividida entre Pena Schimdt, Liminha, Vitor Farias, Paulo Junqueiro e a banda. No final das contas, o Ira! conseguiu lançar o álbum do jeito que queria.

E o resultado acabou sendo surpreendente em comparação com o fiasco comercial de "Mudança de Comportamento". Auxiliado pela febre do consumo do Plano Cruzado de Sarney, o disco vendeu bastante, alcançando o tão sonhado "disco de ouro", além de elogios por parte da crítica: "Um disco fluente, sem truques, sem detalhes", escreveu Alex Antunes na edição de novembro de 1986 da revista Bizz.

Mas, apesar do sucesso, o Ira! teve que enfrentar uma grande polêmica quando do lançamento do álbum. A letra de "Pobre Paulista" (que finalmente era lançada em disco, depois do abortado compacto de 1984), apesar de ser uma forte crítica aos governantes de São Paulo, fez com que muita gente taxasse o Ira! de fascista: "Não quero ver mais essa gente feia / Não quero ver mais os ignorantes / Eu quero ver gente da minha terra / Eu quero ver gente do meu sangue".

Além de "Pobre Paulista", "Gritos Na Multidão", outra canção daquele compacto, foi gravada em "Vivendo E Não Aprendendo". O curioso é que a banda preferiu gravá-las ao vivo em um show na danceteria paulistana Broadway, ao invés de registrar novas versões em estúdio.

Além dessas duas canções, outras fizeram sucesso nesse segundo trabalho do Ira!, como "Envelheço Na Cidade" e "Dias de Luta". E o grupo de São Paulo continuava cantando músicas "românticas" que falavam em valores como superação, amizade e justiça, gritando contra as coisas que considerava erradas, e exemplos disso estão em "Tanto Quanto Eu" e "Vitrine Viva".

Mas em termos de sucesso, nada pode ser comparado a "Flores Em Você" (escrita por Edgard e sua namorada Taciana Barros, em homenagem a Julio Barroso), que, com um belo arranjo para um quarteto de cordas, idealizado por Jacques Morelenbaum, acabou sendo eleita a faixa de abertura da novela global "Os Outros", estrelada por Francisco Cuoco, e que passava no horário das oito da noite.

Em entrevista ao jornalista Guilherme Bryan, para o livro "Quem Tem Um Sonho Não Dança - Cultura Jovem Brasileira Nos Anos 80", Liminha explicou como foi a escolha da canção: "Todo mundo tentava encaixar uma música na novela, de preferência das oito. Aí a Globo resolveu escalar um diretor artístico de cada gravadora para fazer novela e me escolheram para fazer uma das oito, 'O Outro'. Acabou entrando o Ira!, com 'Flores Em Você', que foi onde pudemos mostrá-lo ao Brasil inteiro e colocar a música em primeiro lugar".

O show do lançamento de "Vivendo E Não Aprendendo" aconteceu na Praça do Relógio, localizada no campus da USP, no dia 11 de outubro de 1986. O público estimado foi de 40 mil pessoas. Em seguida, o Ira! virou capa da revista Bizz e foi presença constante em programas da Rede Globo, como o Cassino do Chacrinha e o Globo de Ouro. Definitivamente, o Ira! conhecia o "mainstream".

Entretanto, mais uma vez (e como de costume), o Ira! não se esqueceu de seus ideais. Em uma apresentação especial de Natal para o Cassino do Chacrinha, o quarteto se recusou a usar um gorrinho de Papai Noel, e acabou sendo banido do programa. A ideia do Ira! não foi apenas um ato juvenil inconsequente. "O problema não era o gorrinho e nem o Chacrinha. Chacrinha foi um revolucionário da comunicação brasileira. Eu estaria sendo cabotino se não admitisse a sua importância. Mas aquela loucura toda já não existia mais. O 'Cassino do Chacrinha' era um programa montado para tirar dinheiro das gravadoras e fazer com que os artistas tocassem de graça. Um balcão de negócios", explicou Nasi ao jornalista Ricardo Alexandre.

Entre mortos e feridos, o Ira! continuou a sua vitoriosa batalha, sempre lançando discos íntegros e de acordo com aqueles ideais (hoje em dia, tão ultrapassados...) que sempre permearam a sua carreira, desde os tempos do Subúrbio. Pena que a banda tenha encerrado as suas atividades em 2007.

Faixas:
1)    Envelheço Na Cidade
2)    Casa de Papel
3)    Dias de Luta
4)    Tanto Quanto Eu
5)    Vitrine Viva
6)    Flores Em Você
7)    Quinze Anos
8)    Nas Ruas
9)    Gritos Na Multidão
10)    Pobre Paulista


Abaixo, um vídeo do Ira! Cantando "Pobre Paulista", no programa "Fábrica do Som", em 1983.


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Comentários
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    18/04/2009 00:47:18Marcos AntonioAnônimo

    Os ideais NUNCA serão ultrapassados, só o serão para quem não tem princípios.

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    16/04/2009 23:32:56Joe StrumeAnônimo

    "O single foi gravado em 1984, mas na hora do lançamento... Deu tudo errado. O disquinho acabou não saindo, porque a gravadora ficou com medo da censura com relação as duas canções." ESTA INFORMAÃ?Ã?O Ã? EQUIVOCADA. O DISCO SAIU SIM! EU INCLUSIVE TENHO ESTE COMPACTO. Js

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    13/04/2009 15:44:35MauricioMembro SRZD desde 09/01/2010

    Em 1996 fui à expormusic em São Paulo, o IRA tinha acabado de lançar um disco ao vivo no Japão, lá conheci o Edgard e o Kiko Zambianchi, fiquei horas conversando com eles...pra resumir, que saudade da rádio FLUMINENSE!!! VALEU MELO, VALEU MELO.

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    26/03/2009 14:19:47Rafael PompeuAnônimo

    Olá Ã?timo texto... só me pergunto se os ideais estão assim tão ultrapassados... Abraços.

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