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06/05/2009 11h25

Cesta Básica: Os melhores álbuns de Elza Soares
Luiz Felipe Carneiro

Cesta Básica: Os melhores álbuns de Elza Soares

"Tenho 21 anos, fui mãe de seis filhos, encarei muita fábrica de sabão e cantava no clubinho do bairro por duzentas pratas a sessão. Se eu não fosse alegre, o que seria de mim?" Essas frases de Elza Soares estão no encarte de "Se Acaso Você Chegasse", o seu primeiro álbum, lançado em 1960. Elas traduzem bem o estado de espírito sofrido e, ao mesmo tempo, divertido da cantora nascida em Moça Bonita (Rio de Janeiro), em junho de 1937. Apesar do bom humor da cantora nesse texto de apresentação de seu álbum de estreia, muita água rolou até que a Odeon se animasse a lançá-lo, em 1960. Antes disso, Elza Soares teve que encarar o programa de calouros de Ary Barroso, bem como cantar com orquestras nos mais estranhos bailes do subúrbio carioca. O sucesso foi meteórico e, já como artista solo, foi se apresentar em um navio que fazia viagens para a Argentina. Já de volta ao Brasil, a cantora Sylvia Telles, que havia ficado impressionada com a potência vocal da cantora em um show, apresentou Elza a Aloysio de Oliveira, diretor da Odeon. Aí, não teve mais jeito. Já no finalzinho de 1959, Elza Soares estava em estúdio para gravar um compacto com a canção "Se Acaso Você Chegasse", de Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins. O sucesso foi grande e, no ano seguinte, a cantora foi convidada a gravar o seu primeiro álbum, que teve a direção musical do seu vizinho, o trombonista e maestro Astor Silva. Gravado em apenas uma semana do mês de abril de 1960, Elza Soares não decepcionou a sua gravadora, com um disco original, repleto de sambas deliciosos como "Mulata Assanhada" (Ataulpho Alves), "Samba em Copa" (Cyro Monteiro) e "Teleco-Teco nº 2" (Oldemar Magalhães e Nelsinho).


Os 4+ :

"A Bossa Negra" (1960) - Além de não ter decepcionado Aloysio de Oliveira, o então diretor artístico da Odeon ficou muito animado com a perspectiva de sucesso de sua nova pupila. E ficou tão animado que colocou Elza Soares de volta no estúdio no mesmo ano de 1960. "A Bossa Negra" foi gravado entre os dias 04 e 07 de outubro de 1960. Sobre o título do disco, passo a palavra a própria Elza Soares, que o explicou no encarte do relançamento em CD de "A Bossa Negra": "Mas o disco nasceu por causa do Ronaldo Bôscoli. Na época ele escrevia para a revista 'O Cruzeiro'. Ele achou que eu seria uma figura importante, representativa da raça negra, e disse assim: 'é isso o que eu estou procurando! Você vai ser a representante que a gente tanto buscou! E vamos fazer um disco que vai se chamar 'A Bossa Negra'". Contando mais uma vez com a produção de Astor Silva, Elza Soares não mexeu no time que estava ganhando. Ou seja, a sonoridade de "A Bossa Negra", no estilo samba de gafieira, é a mesma do álbum anterior. Os sambas também seguem o mesmo nível de qualidade, talvez até um pouco mais alto. As principais faixas do álbum são "Boato" (de João Roberto Kelly, que foi o primeiro "single" do disco), "Fala Baixinho" (Arsenio de Carvalho / Edson Menezes), "Só Vendo Que Beleza (Marambaia)" (Rubens Campos / Henricão), "Tenha Pena de Mim" (composição de Cyro de Souza e Babahu, que já havia feito sucesso na voz de Aracy de Almeida) e "Beija-Me" (de Mário Rossi e Roberto Martins, e gravada com sucesso por Lúcio Alves no ano anterior). Lupicínio Rodrigues, que havia dado sorte no primeiro álbum, reapareceu em "A Bossa Negra" com "Cadeira Vazia", composta a quatro mãos com Alcides Gonçalves. Os deliciosos "scats" de Elza Soares no samba "Perdão" (de J. Assumpção e Don Carlos) certamente também estão entre os momentos antológicos desse disco. O sucesso foi grande, e permitiu que Elza Soares fizesse coisas até então "inimagináveis". "Através de 'A Bossa Negra', eu tive a honra de sentar à piscina do Copacabana Palace. O máximo, não é? Posso não ter feito nada, mas tinha um negão lindo ao meu lado", disse a cantora.

"Elza, Miltinho e Samba" (1967) - Entre 1961 e 1966, Elza Soares gravou os álbuns "O Samba é de Elza Soares" (61), "Sambossa" (63), "Na Roda do Samba" (64), "Um Show de Elza" (65) e "Com a Bola Branca" (66). No cardápio dos cinco álbuns, a mesma receita de sucesso de "A Bossa Negra", ou seja, belos arranjos no estilo gafieira para sambas de gente como Monsueto, Assis Valente, Dorival Caymmi, Ary Barroso, Capiba, Billy Blanco e Synval Silva. Em 1967, foi a vez de "O Máximo em Samba", que abria com "O Velho Mundo de Monteiro Lobato", clássico samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira. No mesmo ano, Elza Soares gravava o seu primeiro álbum (de uma trilogia) ao lado do sambista Miltinho. "Elza, Miltinho e Samba" foi uma ideia da Odeon para seguir a esteira de sucesso puxada por Elis Regina e Jair Rodrigues, que vendiam horrores com os seus álbuns "Dois na Bossa" (que também teve três volumes). O LP de Elza e Miltinho foi gravado nos dias 28 e 29 de agosto de 1967, sob a batuta dos maestros Orlando Silveira e Nelsinho. Assim como nos discos de Elis e Jair, "Elza, Miltinho e Samba" era essencialmente composto por medleys que juntavam sambas dos mais diversos compositores. O primeiro juntava, logo de cara, os clássicos "Com Que Roupa" (de Noel Rosa) e "Se Você Jurar", de autoria de Ismael Silva. Outros grandes sambas como "Eu Quero Um Samba" (Haroldo Barbosa e Janet de Almeida), "Requebre Que Eu Dou Um Doce" (Dorival Caymmi), "Antonico" (de Ismael Silva e cantado por Elza Soares) e "Louco de Saudade" (composta por Denis Brean e interpretada exclusivamente por Miltinho) também marcaram presença nesse primeiro volume do encontro de Elza e Miltinho. Os dois cantores reeditaram a parceria em mais dois álbuns, gravados nos anos de 1968 e 1969.

"Baterista: Wilson das Neves" (1968) - Mesmo com o imenso sucesso de "Elza, Miltinho e Samba", Elza Soares não quis gravar um segundo volume de imediato. Antes do reencontro com Miltinho, a sambista já tinha compromisso com o baterista Wilson das Neves. O álbum "Baterista: Wilson das Neves" foi gravado sob a regência dos maestros Nelsinho e Lyrio Panicalli em apenas quatro dias entre os meses de setembro e outubro de 1967. Para o repertório, Elza Soares e Wilson das Neves optaram por um repertório mais heterogêneo do que os álbuns anteriores da cantora, compostos essencialmente por sambas. Em "Baterista: Wilson das Neves", apesar de várias canções atirarem para outros lados, como as bossas "Samba de Verão" (Marcos Valle), "Garota de Ipanema" (Tom Jobim / Vinicius de Moraes) e "O Pato"(Neusa Teixeira / Jayme Silva), o samba-canção "Copacabana" (João de Barro / Alberto Ribeiro) e o rap "Deixa Isso Pra Lá" (Edosn Menezes / Alberto Paz), o resultado final apresentava um samba coeso e da melhor qualidade. E a maior prova disso é a irresistível gravação de "Deixa Isso Pra Lá". Nela, Wilson das Neves mostra bem o seu poder de fogo, mais parecendo que tem 50 pratos a sua disposição. Obviamente, Elza Soares não deixou de gravar sambistas que sempre estavam presentes em seus álbuns, como Haroldo Barbosa ("Palhaçada") e Dorival Caymmi ("Saudade da Bahia"). No álbum, Elza ainda aproveitou para regravar e dar nova roupagem a três sucessos de seu primeiro álbum ("Se Acaso Você Chegasse", de 1960): "Mulata Assanhada" (de Ataulfo Alves), "Teleco-Teco nº 2" (de Oldemar Magalhães e Nelsinho) e "Se Acaso Você Chegasse", de autoria de Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins.

"Sangue, Suor e Raça" (1972) - Após as parcerias com Miltinho e Wilson das Neves, Elza Soares retornou ao estúdio e, em 1972, saiu de lá com o álbum "Elza Pede Passagem", que teve a direção musical de Lindolfo Gaya e arranjos do pianista Dom Salvador, o que fez com que a sua sonoridade transitasse entre o samba e o funk. No mesmo ano, Elza Soares estreou uma parceria com outro peso-pesado do samba. Com Roberto Ribeiro - que já havia gravado em conjunto com Dóris Monteiro -, Elza gravou o álbum "Sangue, Suor e Raça". A dupla permaneceu em estúdio por 11 dias, entre os dias 09 e 19 de outubro de 1972. Em dezembro, o álbum chegava às lojas. "Sangue, Suor e Raça" contou com a produção de Lindolfo Gaya e arranjos de Nelsinho e Dom Salvador. Assim como já acontecera nos álbuns gravados ao lado de Miltinho, este com Roberto Ribeiro também estava repleto de medleys e sambas de grandes compositores, dentre os quais Assis Valente ("Brasil Pandeiro"), Pedro Caetano ("É Com Esse Que Eu Vou", que, no ano seguinte, veio a ser gravado por Elis Regina), Cartola ("Decadência"), Miltinho e Paulo Cesar Pinheiro ("Cicatrizes"), Xangô ("Recordações de Um Batuqueiro"), Ismael Silva ("Coisa Louca") e Noel Rosa ("A Razão Dá-Se a Quem Se Tem"). O texto assinado por Herminio Bello de Carvalho na contracapa do LP dá bem uma ideia da força de "Sangue, Suor e Raça": "A crioula Elza é raçuda, e não brinca em serviço quando confia em alguém. Sua fé em Roberto Ribeiro me contagiou, e vinha já alentada pelo entusiasmo de Milton e Alaíde (Miranda e Araujo, respectivamente). Com o seu dengo de nega que não esconde o jogo, ela mais uma vez se joga por inteiro, se atiçando no samba - seu fogo predileto. E nesse ato se devolve com alegria ao lugar que deixou lacrado, quando partir prá endoidecer as europas. E regressa entregando de bandeja esse menino, que tem caráter e talento prá cumprir a sua predestinação. Muita raça e suor escorreu nas três sessões em que este LP foi gravado, debaixo do maior carinho da equipe técnica (que zorra utilizar os oito canais!). Há de servir àquilo que foi proposto: fazer as pessoas se retomarem nos olhos com alegria, conferindo as coisas da vida sem maiores encucações."


Dispensável :

"Voltei" (1988) - Ainda pela Odeon, após o disco em parceria com Roberto Ribeiro, Elza Soares gravou mais cinco álbuns ("Elza Soares", de 73, "Elza Soares", de 74, e que marcou a sua estreia na gravadora Tapecar, "Nos Braços do Samba", de 75, "Lição de Vida", de 76, e "Pilão + Raça = Elza", de 77), todos com relativo sucesso comercial. Em 1980, entretanto, Elza Soares se mudou para a CBS, onde gravou o não muito feliz "Negra Elza, Elza Negra". Foram mais cinco anos até que Elza pudesse voltar a entrar em estúdio. No ano de 85, saía, via Som Livre, o disco "Somos Todos Iguais", que continha até mesmo uma canção do Barão Vermelho ("Milagres", composta por Cazuza e Roberto Frejat). Mais três anos se passaram, e Elza Soares lança um novo álbum pela RGE. Com o sugestivo título de "Voltei", o álbum começa com a altura lá em cima com um medley juntando "Voltei" (Osvaldo Nunes / Celso Castro), "Bom Dia Portela" (David Correa / Bebeto de São João) e "Malandro" (Jorge Aragão e Jotabê). Nas 10 faixas do álbum, Elza Soares renovou o seu time de compositores, gravando canções de Nelson Rufino, Beto Sem Braço, Zé Roberto, Arlindo Cruz, Sombrinha e Luiz Carlos da Vila. Realmente, Elza Soares, depois de um período no ostracismo, estava de volta, mas algumas canções do álbum deixaram a desejar, lembrando muito pouco da Elza Soares que gravou os quatro discos listados acima. Ainda bem que nos anos 00, Elza Soares deu a volta por cima, renovando a sua sonoridade, e gravando belos discos como "Do Cóccix Até o Pescoço" (2002), "Vivo Feliz" (2003) e "Beba-Me - Ao Vivo" (2007).


Em seguida, um trechinho de "Se Acaso Você Chegasse", música constante no disco "Baterista: Wilson das Neves".


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Comentários
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    14/11/2014 15:35:19angelo camposAnônimo

    O que tenho de Elza, encontrei numa coletânea dos anos 90, cd duplo baratíssimo num camelô. Jóia rara, cada música que ouvia, voltava no tempo e me lembrava que conhecia quase tudo do rádio ou TV nos anos 60.

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    02/08/2011 09:07:26LuizCPSAnônimo

    Elza Soares é uma das melhores cantoras do Brasil, senão a melhor. Acho que só vão descobrir que é a melhor depois que ela morrer. Nas lojas de cds, encontramos pouca coisa de Elza. Os antigos são dificílimos de achar, achamos no máximo os discos dos anos 00. Tenho em LP o disco de Elza e Miltinho, maravilhoso. Tenho também em CD Lição de Vida, meu preferido, Nos Braços do Samba, também ótimo, e os mais recentes. Gostaria de comprar todos os antigos, mas em tempos de mp3 e pirataria, se torna cada dia mais difícil achar discografia de Elza Soares.

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