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24/05/2009 14h26

Ascensão e queda de um mito em 90 minutos
Luiz Felipe Carneiro

Ascensão e queda de um mito em 90 minutos

"Simonal - Ninguém Sabe o Duro Que Dei." Anotem esse título. Motivo: é um dos documentários mais sensacionais dos últimos tempos. Nessa semana, tenho ouvido diversas pessoas falarem bem do filme. E olha que muitas delas nem sabem quem foi Wilson Simonal... Então, se você gosta de Simonal, ou simplesmente curte Música Popular Brasileira, vai adorar o documentário. E se você não gosta de Simonal e nem de MPB, não se preocupe. A dica continua valendo. Vá assistir a "Simonal - Ninguém Sabe o Duro Que Eu Dei" para, pelo menos, aprender um pouco a História de seu país.

Recheado de imagens raras, o documentário já começa com o cantor dizendo uma frase que pode funcionar como chave de leitura do filme: "Ou você vai ser alguém na vida ou vai morrer crioulo mesmo". Simonal optou ser alguém na vida, mas não deixando de ser crioulo, raça que ele se orgulhava o suficiente para compôr uma canção como "Tributo a Martin Luther King".

O maior mérito do documentário, produzido pelo "Casseta" Claudio Manoel, Calvito Leal e Micael Langer, é não ser chapa-branca. Ele é doce e duro ao mesmo tempo. Doce por nos fazer relembrar (ou conhecer) o furacão chamado Wilson Simonal. E duro por não tomar partido de algumas atitudes do cantor, uma das quais acabou o condenando ao ostracismo até a sua morte, no ano 2000 - e depois dela.

A segunda metade do documentário é dedicada exatamente ao problema que Simonal teve com o seu contador Raphael Viviani no auge da fama, em 1972. O cantor achava que estava sendo roubado. O contador dava a entender que Simonal não tinha noção do dinheiro e nem controle de seus gastos. Resultado: Viviani foi levado para o Departamento de Ordem Política e Social (Dops), torturado e obrigado a assinar a sua confissão de culpa. Após, ele acusou Wilson Simonal de ser o mandante de seu sequestro, e o cantor acabou condenado (por "alta periculosidade", o que não dá direito a "sursis") e preso.

Após o episódio, Simonal foi condenado a uma espécie de prisão moral perpétua. A sua suposta ligação com o Dops não ficou esclarecida, o que deixou os seus colegas receosos. "A partir do ocorrido, ele virou um leproso, um pária", disse Nelson Motta em determinado momento do documentário. Simonal foi boicotado por gravadoras, casas de show e a ele só restou o momento, anos e anos depois, de aparecer em programas de televisão de gosto duvidoso para ainda insistir que era inocente. Uma "overdose de ostracismo", que o deixou até com medo de estar presente nas apresentações de seus filhos, para não comprometer a carreira deles.

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Além dessa questão, "Simonal - Ninguém Sabe o Duro Que Dei" mostra o estrondoso sucesso alcançado pelo cantor. Ascensão e queda de um mito em 90 minutos!

O "mito" não é exagero. Basta ver as imagens de Simonal regendo milhares de pessoas em um Maracanãzinho lotado. (Segundo Tony Tornado, "foi aí que começou a inveja, a raiva"...) Mais do que cantor, ele era um verdadeiro "showman". Ou como disse o pesquisador musical Ricardo Cravo Albin, "um músico-cantor", que mesmo sem falar inglês, dividiu o microfone com Sarah Vaughan em uma versão para "The Shadow Of Your Smile". A canção é apresentada na íntegra, sem cortes, no documentário.

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Além das imagens raras, o documentário apresenta depoimentos de diversas pessoas. Chico Anysio, Ziraldo, Castrinho, Tony Tornado, Paulo Moura, Boni, Miele, Sérgio Cabral, Cravo Albin, Arthur da Távola, Mário Sabá (integrante do Som 3, que acompanhou Simonal em diversas apresentações), Pelé, os filhos Max de Castro e Wilson Simoninha... Enfim, de tudo um pouco.

E o mais bacana é que essa pluralidade de vozes abre diversas questões interessantes envolvendo Wilson Simonal. Por exemplo: a "Pilantragem" foi importante para a Música Popular Brasileira? Segundo Nelson Motta, sim. "Ela é uma das primeiras manifestações do pop brasileiro", disse. Quer saber a opinião de Sérgio Cabral? Toma: "A ?pilantragem' era uma bobagem que em nada contribuiu para a MPB; o Simonal era melhor do que aquilo."

Outra questão abordada no filme é o lado comercial tão explorado por Simonal. "Eu já sou negro, sou feito, quero mais é grana", disse o cantor, que fez propaganda de diversos produtos e ainda licenciou para venda o tal boneco Mug, com o qual conversava em seus shows e programas de televisão. Em outro momento, ele disse: "O negócio é grana no bolso e férias na Suíça". E aí? Simonal está certo ou errado? Ou ele apenas antecipou em três décadas o que um jogador de futebol famoso faz hoje?

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E por falar em futebol, é deliciosa a cena que mostra Simonal e Pelé cantando juntos na concentração da Seleção durante a Copa de 1970. E engraçadíssima a peça que pregaram no cantor, e que o deixou esperançoso de ser o ponta-direita da Seleção tricampeã do mundo. Essa história, eu não vou contar aqui não...

E quer um conselho? Assista o documentário. Das três, uma: ou você se emociona, ou aprende, ou se diverte. Qualquer um dos três está valendo. E, no final das contas, se você conseguir, ao mesmo tempo, se emocionar, aprender, e se divertir, certamente também vai considerar "Simonal - Ninguém Sabe o Duro Que Dei", um dos melhores documentários produzidos nos últimos tempos.


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