SRZD


26/06/2009 05h35

Muitas lágrimas e uma estrela
Luis Carlos Magalhães

Disco novo de Nei Lopes na praça.

Ainda não ouvi, mas gostei "pra caramba"!

Nei para mim é uma referência. Vou comprar o disco, mandar fritar um camarãozinho, abrir uma cervejinha e saborear o disco, como tantas vezes já fiz.

Quando sai um livro faço diferente. Ponho a rede na varanda, um limãozinho ou um maracujá e saboreio até o final.

Portelenses à parte, minhas referências maiores lá de trás são Ismael Silva e Noel Rosa. Um pouco depois Cartola. Já mais para cá Chico Buarque e Nei Lopes. 

Os maiorais para mim são Baden Powell e Elza Soares: deuses incomparáveis da raça.

Engraçado que se não fosse o "feitiço" da água de Seropédica Nei teria  escolhido a Vila Isabel para viver, tenho certeza.

Chico, como sabemos, é um carioca que nasceu em São Paulo. Se tivesse nascido no Rio certamente teria sido em Copacabana, onde sua família sempre morou, na esquina do Bip-Bip. 

Mas acho que seria uma grande coerência se Chico tivesse nascido em Vila Isabel, não sei bem o motivo.

Também não sei bem porque acho que se Eric Clapton, outra referência, meu 'blueseiro' favorito, não tivesse nascido inglês teria vindo ao mundo em uma daquelas ruas de Vila Isabel.

É maluquice mas eu acho.

Como já disse outras vezes, eu gosto mais mesmo é de samba-enredo. Noel nunca fez um, nem Ismael, nem Eric Clapton, pelo menos que eu saiba.

Nei fez uma obra prima: "Ao Povo Em Forma De Arte", junto com Wilson Moreira para a Quilombo de 1978. A Quilombo de Candeia.

Fez outros para o Salgueiro, mas não sei se ganhou algum. 

De um sei uma história meio maluca. Quem me contou foi Mauro Torrão, do bloco Raízes da Tijuca, do pé do morro, da ala de compositores da escola. Se não é verdadeira, também não  chega a ofender a ninguém. 

Vamos lá:

Era o carnaval de 1982.

Salgueiro atravessava tremenda crise. Interna e financeira. Osmar Valença pulou fora, Isabel nem sei se desfilou. O Presidente Sillos de Oliveira ( é, eu disse Sillos...) chegou a ser afastado em cima da hora para a escola sair naquele ano.

Nei era da ala de compositores e naquele ano fez parceria com a trinca vencedora do ano anterior: Mauro, Buguinho e Henrique.

Chegou a disputa. Samba na quadra ... arrebentando!

Segundo o "cascudo" Mauro, aquele samba deles era um "sambaço", disse que era um grande samba. Que ia entrar para a história do Salgueiro.

Ele que falou...

O enredo era "No Reino do Faz de Conta", o carnavalesco era José Felix, e o "nosso" samba concorria com o de Zé Di e um outro lá.

Conta Mauro que o enredo fazia referência aos diversos reinos da história da humanidade, inclusive o Reino da cidade sagrada de Oyó, reino de Xangô, o orixá, em carne e osso.

Bem, todos sabemos como "o cara" de Seropédica trata desses assuntos.

Mauro segue contando que o samba foi à final com o do Zé Di, já nas beiradas do carnaval, na quadra do Confiança.

Ocorre que o samba concorrente, de Zé Di, não fazia referência ao Reino de Oyó. O samba finalista falava era de io-iô mesmo.

Vamos tirar a  prova lá no "Galeria do Samba":

"...ao ver a lua
No seu reino prateado
Clareou o coche dos leões
É de ioiô, é de ioiô, rei dos trovões
Pai Xangô, seu oxé
Justiceiro do reino de quem tem fé..."

Como vemos, mesmo fazendo referência ao machado duplo, aos trovões e à justiça, todos caracterizadores de Xangô, orixá iorubano, não há referência à cidade de Oyó, principal cidade iorubana, impossível de não ser referida em enredo de uma escola de samba como o Salgueiro com um enredo daquele. 

Segundo Torrão alguém da escola teria criticado o erro no samba do Nei que estaria usando a grafia errada da palavra io-iô: Oyó no lugar de iô-iô.

Eu não acredito nisso, mas o Mauro Torrão jura que é verdade.

Daí podemos imaginar a reação de Nei Lopes, diante de algo tão estapafúrdio. 

E foi assim, segundo Torrão, que o samba foi eliminado: 'tava errado!'. Pode?

De outro samba do Nei, "Valongo", de 1976 - a cara dele - só me lembro que fui a uma das semi-finais e o samba era tido como favoritíssimo, de tão bonito. Eu morava em São Paulo e de lá soube que um outro samba havia vencido. Um samba do Djalma Sabiá.

Mas voltemos às referências...

O quê que Eric Clapton tem com isto? Onde é que Chico Buarque entra nesta história?

Nei Chico nem Clapton têm nada a ver com o Salgueiro, mas, aqui nesta hora, tudo a ver com Nei Lopes.

Eu acho que se perguntassem aos deuses qual seria "a dor maior", a dor que dói mais, os deuses responderiam que é a dor da perda de um filho. 

E acho que se houvesse um concurso entre os maiores poetas do mundo, de todos os tempos, para expressar essa dor maior, acho que "Pedaço de Mim", do Chico Buarque venceria:

"...Oh! Pedaço de mim
Oh! Metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés do parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu ..."

Eu estava em Nova Iorque em 1991 quando o filho de Eric Clapton despencou do alto de uma daqueles prédios imensos.

Li a notícia na banca de jornal e senti, por um momento, uma vontade enorme de ir lá abraçá-lo.

E fiquei pensando... e agora?

Chico Buarque, com toda sua poética e toda sua capacidade de interpretar sentimento alheio, foi preciso. 

Mas ali era diferente. Como se comportaria um poeta diante da própria dor?

E foi assim que Clapton compôs "Tears in Heaven" (lágimas no céu) para seu filho. Como se não pudesse ficar sem ele; como se tivesse ido atrás dele... 

Como seria se o encontrasse?:

"...Você saberia meu nome, se eu o encontrasse no céu?
Seria a mesma coisa, se eu o visse no céu?
Eu tenho que ser forte e continuar
Por que sei que não posso ficar lá contigo".

"...Você seguraria minha mão, se eu o encontrasse no céu?
Você me ajudaria a levantar, se eu o encontrasse no céu?
Eu buscarei meu caminho, através das noites e dos dias
Porque sei que não posso ficar lá contigo...".

Muito antes disto Nei Lopes perdera seu filho, nas águas traiçoeiras do mar de Maricá. 

Muitos anos depois eu soube que ela fizera um samba. Tudo que soube é que era um samba muito bonito.

Alimentei durante bom tempo o desejo de ouví-lo. Imaginava-o uma pérola de sentimento, de amor e de perda, pelo tanto que admirava seu autor.

Depois soube que Maria Creusa o havia gravado, e que seu nome era "Estrela Cadente". 

O samba falava do nascimento, do quanto o menino representou naquele momento de sua vida: um facho de luz. 

E de como ele se foi. 

O samba fala da presença que o poeta sentia depois, ora num raio de sol, ora a luz "calma" do luar, sempre uma recordação tão doce.

E chegou o dia em que afinal pude ouví-lo. Foi bem depois da morte do filho de Eric Clapton: "Tears in Heaven" já havia sido composta e gravada.

O samba de Nei é anterior à balada de Clapton, muito anterior. Ao ouví-las pude perceber suas semelhanças que, se me surpreenderam no princípio, depois foram reconhecidas inevitáveis tantos os pontos comuns que as originaram.

Ambas muito tristes ... muito fortes.

Mas algo havia em "Estrela Cadente" que continuava a me surpreender. Algo de tal forma surpreendente que fiquei por algum tempo tentando identificar o que era.

Sim, "Estrela Cadente" é mesmo muito triste. Mas há nela algo que a diferencia de "Tears in Heaven" e que hoje é muito claro para mim, ainda que cada vez mais surpreendente.

Não há nela, seja em toda sua melodia ou em toda sua poesia, qualquer traço negativo, baixo astral. Algo que denote desesperança. O samba de Nei para seu filho surpreende por ser capaz de transformar dor tão imensa em uma janela aberta para sua vida que continuava. 

Uma janela para ele, pai, poeta.

Uma janela que o confortava, que acolhia seus dias futuros. Uma janela que terá sido seu caminho. O mesmo caminho que Clapton buscava, atormentado (?) em "Tears in Heaven", "...através das noites e dos dias". 

Ao ouvir "Estrela Cadente" tive a impressão que Nei nunca esteve longe de seu filho, que entre eles há uma janela aberta para a luz.
 
Em tempo: A tradução do trecho de "Tears in Heaven" não é literal.

SUGESTÉO PARA OUVIR AGORA:

Samba: Estrela Cadente

Autores: Cláudio Jorge e Nei Lopes

Voz: Maria Creuza

Disco: Paixão Acesa

Gravadora: Arca Som

Arranjo: Ruy Quaresma

ESTRELA CADENTE

Nei - Nei

Uma estrela desceu de lá do céu

E num facho de luz me iluminou

Passou dentro de mim

pra fazer tudo se acender

Estrela cadente

que subitamente

me fez renascer

Mas um dia essa estrela resolveu

regressar pro lugar

onde nasceu

foi pra beira do mar

se deitou se deixou levar

num floco de espuma

num gesto de pluma

flutuou no ar

Mas lá do céu onde está

vez por outra ela vem

calma, serena

me visitar

Vem num sonho bom

Vem num despertar

num lampejo de inspiração

num raio de sol

num calmo luar

numa doce recordação

E-mail para contatos mais prolongados: [email protected] 


Comentários
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    21/07/2009 16:02:33Walcyr BorgesMembro SRZD desde 24/07/2009

    Obrigado Nei, Claudio Jorge. Obrigado Luiz Carlos.

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    08/07/2009 20:23:24RenataAnônimo

    Eh isso ai doutor Luis Carlos. Adorei a ponte entre o Lopes e o Clapton. Fiquei me perguntando quando ambas as musicas foram compostas, pois talvez pudesse ajudar explicar as diferencas no estado de espirito destes dois poetas ao comprem seus desabafos. Aquele abraco!

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    01/07/2009 00:04:08Luciano SáAnônimo

    LC, o Chico nasceu numa maternidade aí na Bento Lisboa, pertinho do Largo do Machado. Lá pelos idos de 1988 passava em frente. Ainda deve existir.

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    29/06/2009 09:19:22Gustavo MonteiroAnônimo

    Parabéns ao colunista por mais esse belo texto. E quem quiser ter uma outra gravação do "Estrela Cadente", tem ela também no disco "Coisa de Chefe", do Cláudio Jorge.

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    28/06/2009 21:57:11LUIZINHO DA CUICAMembro SRZD desde 07/04/2009

    Grande Luiz Carlos, li seu comentário sobre o "Mito Didi", para mim, a Maior Caneta do Mundo do Samba. Salgueirense de coração, mas Insulano por opção, e foi ali que desabrochou, ao menos, em minha na época, minha juventude. Quanta saudade sinto daquele Grande Amigo, isso nem o tempo, jamais apagará. Não poderia você, falar algo sobre ele, para aqueles que não o conheceram, mas agora venham saber quem foi, quem era Didi......., abraços

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    27/06/2009 12:28:01Paulinho FreitasAnônimo

    Que pedrada! Sem comentários. Valeu!!!!!!!!!!!!!!!!!

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    27/06/2009 12:03:58Monica AraujoAnônimo

    Especialmente neste site foi o texto mais belo e a referência mais perfeita que já li. Sou sua fã !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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    26/06/2009 22:04:48marcus Vinicius de PaulaMembro SRZD desde 26/06/2009

    Gostei muito do texto e não tinha feito ainda reflexão sobre estes dois grandes compositores. E a música??? e a música??? e a música??? só amanhã?? abs

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    26/06/2009 19:03:32LUIZINHO DA CUICAMembro SRZD desde 07/04/2009

    Falar de Nei Lopes, é falar de Samba...., de Raiz....., de Emoção..... . Nei como alguns já bem descreveram, é um Castro Alves moderno sim, emocionando, e trazendo alegrias, já a algum tempo para os mais velhos e hoje para essa garotada, que por aqui está. Dia desses me surpreeendi, quando peguei o fone de ouvido, do mp3 de meu filho, ele ouvia Nei Lopes, irmão que alegria isso me deu, ao me deparar hoje, com uma juventude Funqueira, com letras muitas vezes violentas, essa do Nei no mp3 do meu filho, ganhei o dia. Palavra alguma nos consola em uma hora perda, as vezes nem o tempo, que tudo pode, consegue esse sacode. Viver uma perda, é dificil....., mas como me dizia Mestre Louro, isso faz parte da vida.... , e não podemos parar, a Vida continua......, as vezes até sem sentido, mas a Vida continua...........

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    26/06/2009 18:51:57José Roberto Rêgo SobrinhoMembro SRZD desde 07/04/2009

    Valeu você pelo artigo!!! Aproveitando a chance, quero agradecer o artigo sobre a União da Ilha do Governador!!! Obrigado pela oportunidade de expressão!!!

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    26/06/2009 18:02:23Luis Carlos Magalhães de Souza RibeiroMembro SRZD desde 26/06/2009

    J.Roberto, J.Carlos e Julinho, obrigado por acompanharem o trabalho e pelos incentivos. Comunico que houve um problema no áudio e o samba só mais tarde estará disponibilizado. Tenho certeza que vale a pena voltar aqui logo mais.

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    26/06/2009 16:42:07José Roberto Rêgo SobrinhoMembro SRZD desde 07/04/2009

    Prá mim na atualidade, os dois maiores poetas do samba são Luis Carlos da Vila e Nei Lopes, a quem chamo de poeta da negritude, como um Castro Alves moderno!!! Luis Carlos tá no céu, junto com os grandes do samba!!! Já Nei, está muito vivo, então não percamos a chance de reverenciá-lo em vida, pois o nosso país não tem memória!!! Obrigado mais uma vez pela oportunidade de expor minhas idéias!!!

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    26/06/2009 15:54:39joao carlosMembro SRZD desde 17/06/2009

    Luis Carlos cadê a música? Fiquei com vontade de ler escutando o áudio.

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    26/06/2009 15:30:01joao carlosMembro SRZD desde 17/06/2009

    Caramba!!! Se eu já era fã do Nei Lopes agora sou muito mais... Só os grandes poetas conseguem isto.

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    26/06/2009 15:11:52Julinho di OjuaraMembro SRZD desde 13/04/2009

    Tem gente que zomba da dor, tem gente que sofre com a dor, tem gente que aprende com a dor. Tem gente que sequer sente dor, por ser todo oco de amor, e pessoas sem sentimento não sofrem em nenhum momento, porquê jamais saberam o qué ganhar, nem tão pouco o que é perder, que Deus continue nos cercando de gente que é gente como você!

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