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Fitinha da Esquina: Trinta anos atrás...

Luiz Felipe Carneiro | Música | 05/08/2009 10h05

O ano de 2009 ainda está pela metade. Muita coisa boa já foi lançada. Outras ainda serão. Assim, a Fitinha da Esquina desse mês pediu uma ajuda ao Túnel do Tempo para relembrar o que fez sucesso há exatos 30 anos. Naquele já distante ano de 1979, o que dava as cartas no exterior era a dance music. Donna Summer, Gloria Gaynor, Village People e Bee Gees emplacavam um hit atrás do outro. Correndo por fora, tinha o Dire Straits, que explodia com a sua "Sultans Of Swing"; o Pink Floyd lançava "The Wall" e Michael Jackson partia de vez para o pop com o seu álbum "Off The Wall", espécie de prelúdio para o que viria três anos depois em "Thriller". Na música brasileira, os grandes astros da MPB lançavam maravilhas do quilate de "O Bêbado e a Equilibrista" (de João Bosco e Aldir Blanc, com interpretação de Elis Regina) e "Bye, Bye, Brasil" (tema composto por Chico Buarque para o filme homônimo de Cacá Diegues). Por sua vez, Éngela Ro Ro explodia com "Amor, Meu Grande Amor" (que mais tarde ganhou uma boa versão do Barão Vermelho), e Jorge Aragão tinha a sua "Vou Festejar" tocada até dizer chega, na voz de Beth Carvalho. Então, apertem os cintos a bordo do nosso DeLorean, e bem-vindos ao ano de 1979...


Lado A :

1)    "O Bêbado e a Equilibrista" (Elis Regina) - Em 1979, as coisas estavam começando a melhorar no Brasil. A abertura política (lenta e gradual, diga-se de passagem) e a volta dos exilados davam um sopro de esperança ao coração dos brasileiros. Ninguém traduziu esse momento melhor do que João Bosco e Aldir Blanc na canção "O Bêbado e a Equilibrista", que encontrou na voz de Elis Regina a sua mais perfeita tradução. Naquele momento, éramos todos Marias e Clarisses sonhando com "a volta do irmão do Henfil e com tanta gente que partiu num rabo de foguete". Uma das canções mais emocionantes da história do Brasil foi composta há 30 anos. E parece que nem tem tanto tempo assim...

2)    "Realce" (Gilberto Gil) - "Realce, realce / Quanto mais purpurina melhor." Muita gente não entendeu os versos da música de Gilberto Gil. Mas nem era preciso. "Realce", até hoje, é um dos grandes sucessos de Gilberto Gil, e foi um marco para a sua carreira, eis que, nesse momento, o ex-ministro fugia um pouco da MPB mais tradicional para adentrar um pouco no pop-rock com pitadas de disco-music, tendo em vista a febre das discotecas que chegava ao Brasil no final dos anos 70. O resultado, apesar de muito criticado pelos mais puristas, ficou genial.

3)    "Amor, Meu Grande Amor" (Éngela Ro Ro) - Há 30 anos, uma das maiores vozes do Brasil estreava em disco. Éngela Ro Ro lançava o seu primeiro álbum com grandes canções como "Tola Foi Você" (regravada por Leo Jaime) e "Agito e Uso" (que ganhou uma ótima versão de Simone e Zélia Duncan recentemente). Mas a grande música daquele álbum era mesmo "Amor, Meu Grande Amor", que, em 1996, virou sucesso popular com o Barão Vermelho. Em parceria com Ana Terra, Éngela Ro Ro mostrou que não era somente uma grande pianista e uma excelente cantora, mas também uma letrista de mão cheia. Os versos não me deixam mentir: "Amor, meu grande amor / Não chegue na hora marcada / Assim como as canções como as paixões / E as palavras". Aliás, em 1979, a cantora foi eleita "a sensação do ano", pelo Jornal do Brasil.

4)    "Vou Festejar" (Beth Carvalho) - Também há 30 anos, um de nossos maiores sambistas dava as caras. E a sua madrinha, como não poderia deixar de ser, foi Beth Carvalho. Mais uma vez, ela não errou, e "Vou Festejar", de Jorge Aragão, foi o maior sucesso do seu álbum "De Pé No Chão" (lançado em 1978, mas a música explodiu no Carnaval do ano seguinte). Com a seção de percussão do bloco Cacique de Ramos idealizada pelo produtor Rildo Hora, a canção foi sucesso do Oiapoque ao Chuí. E os versos "Você pagou com traição / A quem sempre lhe deu a mão" tocaram no fundo da alma de muita gente...

5)    "Bye, Bye, Brasil" (Chico Buarque) - Em 1979, Cacá Diegues ia rodar mais um filme. O título já estava definido, mas ainda faltava a música-tema. Vizinho de Roberto Menescal, ele pediu ao violonista que fizesse o arranjo e sugeriu o nome de Chico Buarque para compor os versos. Dito e feito. Assim nasceu "Bye, Bye, Brasil", a música, considerada uma das mais difíceis da imensa obra de Chico, e que acabou fazendo parte do roteiro de seu último show, "Carioca". Uma curiosidade é que a letra era ainda maior do que a original. Cacá Diegues, impressionado com o seu tamanho, pegou uma tesoura na hora da gravação e a cortou pela metade.

6)    "Começar de Novo" (Simone) - Há 30 anos, um dos programas mais importantes da televisão brasileira fazia a sua estreia. O seriado "Malu Mulher", estrelado por Regina Duarte, mudou a estética da televisão brasileira, ao incluir, em seus roteiros, temas espinhosos como separação, adultério e homossexualismo. Ivan Lins e Vitor Martins foram os compositores escalados para compor a canção-tema do seriado. O difícil foi escolher a intérprete. Maria Bethânia, por exemplo, nem quis ouvir a canção, porque o repertório de seu próximo álbum já estava fechado. A incumbência acabou ficando com Simone, que gravou magistralmente a canção, que se transformou no maior sucesso nacional de 1979. Conforme consta no livro "A Canção No Tempo", de Zuza Homem de Mello e Jairo Severiano, após ouvir "Começar de Novo", Maria Bethânia confessou que "jurava jamais considerar fechado o repertório de um disco seu".


Lado B :

1)    "Sultans Of Swing" (Dire Straits) - Considerada uma das maiores bandas de rock de todos os tempos, o Dire Straits surgiu em 1977. O primeiro álbum chegou às lojas em 1978. Levando o nome do grupo em seu título, o álbum trazia ao mundo a guitarra e a voz inconfundíveis de Mark Knopfler. Mas além disso, ele vinha com grandes músicas, como "Down To The Waterline" e "Water Of Love". Mas nada pode ser comparado a "Sultans Of Swing", que, com o seu maravilhoso solo de guitarra, até hoje, é considerado o maior sucesso da banda.

2)    "I Will Survive" (Gloria Gaynor) - No final dos anos 70, a disco-music ditava a moda. Era Village People pra cá, Donna Summer pra lá; Gloria Gaynor pra cá, Bee Gees pra lá... Inclusive no Brasil, a moda chegou com tudo, e até Gilberto Gil, conforme dito acima, se aventurou em algo mais dançante. A febre foi tanta que foi gravada até uma novela que tinha as discotecas como pano de fundo. Várias canções dançantes poderiam estar aqui nessa Fitinha, como "Love You Inside Out" ou "Hot Stuff" ou "Bad Girls", mas a escolhida foi "I Will Survive", um dos hinos das discotecas até hoje.

3)    "Don't Stop 'Til You Get Enough" (Michael Jackson) - Hoje, podemos dizer que em 1979, Michael Jackson dava os seus primeiros passos para se tornar o "Rei do Pop". "Off The Wall", lançado naquele ano, foi o primeiro disco essencialmente pop de Michael Jackson. Não que os anteriores não fossem, mas canções como "Rock With You", "Don't Stop 'Til You Get Enough" e "Workin' Day And Night" iam além da sonoridade "Black" da Motown, obra do produtor Quincy Jones. E "Don't Stop 'Til You Get Enough" foi uma das músicas mais deliciosas de 1979.

4)    "Da Ya Think I'm Sexy?" (Rod Stewart) - Quando estourou nas rádios em 1979, quase ninguém notou a semelhança entre "Da Ya Think I'm Sexy" (de Rod Stewart) e "Taj Mahal" (de Jorge Ben). Anos depois, o compositor brasileiro ganhou uma ação indenizatória por quebra de direitos autorais em cima do escocês. Brigas a parte, "Da Ya Think I'm Sexy" foi um dos grandes hits de 1979. A canção, que ficou quatro semanas consecutivas no topo da parada de singles da Billboard, foi considerada pela Rolling Stone como a 302ª melhor de todos os tempos.

5)    "Heart Of Glass" (Blondie) - Lançada originalmente em 1975 sob o nome "Once I Had a Love", a canção "Heart Of Glass" era puxada para o reggae, e acabou não acontecendo. Em 1978, com a explosão da disco-music, o Blondie, acertadamente, resolveu regravar a música para o seu álbum "Parallel Lines", sob a batuta do produtor Mike Chapman. O single foi lançado em 03 de janeiro de 79, e, da noite para o dia, a canção alcançou a primeira posição das paradas norte-americana e britânica de singles, e se tornou um dos grandes hits do final dos anos 70.

6)    "Another Brick In The Wall (Part II)" (Pink Floyd) - No finalzinho de 1979, o Pink Floyd lançou um de seus discos mais importantes. Além de contar a história de Pink (espécie de alter ego de Roger Waters), a ópera-rock "The Wall" trazia algumas canções que mais tarde se tornariam clássicos do repertório do Pink Floyd, como "Confortably Numb" e "Run Like Hell". Mas foi "Another Brick In The Wall (Part II)" que acabou se transformando no tijolo fundamental da obra, que, até hoje, gera muita discussão. A canção estourou ainda no ano de 1979 e pavimentou o terreno para o grupo inglês sair em uma ambiciosa turnê no ano seguinte. "The Wall" ainda gerou um filme em 1982.

Abaixo, uma apresentação ao vivo da saudosa Elis Regina interpretando "O Bêbado e a Equilibrista", de João Bosco e Aldir Blanc.



E o Dire Straits com "Sultans Of Swing"...