SRZD


21/10/2009 16h50

A fé que nos enche de esperança
Anderson Baltar

Pela primeira vez, em mais de dez anos de jornalismo, tive dificuldades para iniciar uma coluna. Por inúmeras vezes, escrevi e apaguei, em frustradas tentativas de colocar em formato de texto toda a emoção que vivi na quadra da Imperatriz Leopoldinense na noite da última segunda. Resolvi jogar pro alto todas as regras de redação que vinha adotando até então e deixar o coração falar mais alto. Só assim me senti confortável para poder abordar o tema. O leitor acostumado com análises mais técnicas pode parar a leitura neste momento. Por que, a partir de agora, quem fala é a alma e a felicidade que brotam de um apaixonado por carnaval.

Quem pisou o terreiro da Professor Lacê naquele dia sabe do que estou falando. Estes privilegiados não assistiram tão somente uma final de samba-enredo, como tantas outras por aí (muitas destas, totalmente insossas). Eles presenciaram, acima de tudo, um culto religioso, na melhor acepção da palavra. Não me refiro a preces, homilia, correntes, passes ou coletas de sacolinha. Falo do verdadeiro sentido da palavra religião. Afinal, religião vem da palavra latina religare. Seu significado: "ligar novamente ou reestabelecer a ligação perdida com o mundo que nos cerca ou o nosso mundo interior". Vi, na quadra da Imperatriz, milhares de fiéis da coroa gresilense (ou não, como eu) se religando, se irmanando, buscando forças em um samba de poderes sobrenaturais.

A disputa pouco fazia diferença. Nos olhares de praticamente todos havia uma certeza quase ululante de que dificilmente o samba de Jeferson Lima, Flavinho, Gil Branco, Me Leva e Guga perderia a parada. O sambista mais calejado carregava um certo temor natural - reforçado por escolhas desastradas de outras escolas, que nem sempre privilegiam a qualidade musical ou adequação ao enredo para definir seu hino. Porém, não havia boato ou insinuação maldosa que sobreviveria ao verdadeiro tsunami de fieis que tomou o chão, os camarotes, as mesas e até a laje da casa vizinha à quadra. Baianas giravam, a velha guarda, de olhos marejados, cantava. Passistas riscavam o chão, os torcedores gritavam o samba à plenos pulmões, mesmo atrapalhados por bandeirolas, que, a despeito do bonito visual, tiraram a espontaneidade do canto e da dança, tão presente nas eliminatórias anteriores.

O desempenho apenas razoável do samba na sua derradeira apresentação reforçou temores. Alimentou boatos. Afinal, um jogo que já parecia definido corria risco. Não foi o que aconteceu. As demais parcerias, talvez inconscientemente, assumiram seu papel de coadjuvantes na festa e fizeram apresentações apenas corretas. Talvez não quisessem sair com o sabor da vitória, mas carregando eternamente nos ombros o peso da injustiça.

Ao anúncio do resultado, uma verdadeira catarse. Gritos enlouquecidos, abraços, choros e uma tentativa de invasão do palco, rechaçada pelo povo da segurança. Uma verdadeira cena de beatlemania, que nunca havia presenciado em uma quadra de samba. Também pudera: a Imperatriz havia sido consagrada de vez como o templo do samba e todos queriam chegar perto do altar e comungar desta felicidade.

Mais do que uma vitória de samba, a final de 19 de outubro foi a resposta perfeita a todos que acham que, para levar um samba para a avenida, é preciso comprar consciências e encher a barriga das pessoas de comida e de cerveja. Tanto que um dos sambas finalistas, o da parceria de Zé Catimba, se apresentou sem torcida - um fato inimaginável nos carnavais dos dias de hoje. Ao levar um samba destes para a final e descartar outros tantos cheios de "apoiadores", a diretoria da Imperatriz demonstrou claramente que a escolha de samba privilegia a qualidade das obras e não quem enche a quadra de pessoas que não voltarão mais lá. Afinal, uma potência do carnaval, com o orgulho ferido por resultados decepcionantes, sabe muito bem que precisa renascer. E que não pode trocar décimos preciosos em samba-enredo por migalhas. Principalmente quando se tem uma obra de tamanha qualidade.

E, para renascer, nada como o mar de fiéis. Um samba que já nasce antológico, que foi escolhido por toda a Imperatriz, do presidente ao mais humilde componente. Um samba capaz de irmanar, de emocionar, de puxar do fundo da alma o amor perdido em pisar o chão da Sapucaí. E que faz surgir, no coração de quem verdadeiramente ama o carnaval, a certeza de que nada está perdido. É a resposta definitiva para os saudosistas renitentes, que, a cada ano, decretam a morte do gênero samba-enredo. E a prova definitiva que o desejo de uma comunidade pode ser atendido, de uma forma clara, inteligente e, sobretudo, divina.


Comentários
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    17/11/2009 21:06:31ney rorizMembro SRZD desde 27/08/2009

    Revolução como golpe 64 no Brasil ou matança de Che e Fidel têm lados bons ... um deles é trocar as elites mas o equilíbrio entre aristocratas , populistas , democratas e outros hibridos seguimentos deve voltar rápido... a Liga foi revolução para tirar do centro do carnaval as 4 mais ( PorImpSalMan ) ... revolução tem que ser rápida chocante ou então desvirtua , degenera em vícios maiores . Patrono , Padrinho , Mecenas ... quem não quer ? mas como nas revoluções , são apenas motor de arranque !!! ..não devem ,mas sim podem , ser um momento de guindaste e não um sempre de dependência umbilical . E o samba ? = toda escola pode ter samba bom , toda escola pode ser melhor que as 4 PISM sempre foram , mas ser sempre melhor que as 4 PISM é muito difícil e se não pode deixar de ser rebocada pelo poder plutocrático a carruagem dourada vira abóbora e os cocheiros e pangarés podem continuar cantando sambas lindos como de Lucas , Em Cima da Hora , Ilha etc ... mas os puxa-sacos não vão aplaudir se a caravana passar sem os Sultões e Marajás ... o debate aqui está bom e o lugar é aqui mesmo , para latir , mesmo que a caravana dourada passe ... Portela , Império , Salgueiro e Mangueira perderam a revolução na Plutocrática da LIGA em favor da nova elite com cúpula de Mocidade , Beija , Imperatriz e sempre mais uma ou outra escola do Capitão e Cia ... Eu já vi as 4 PISM sem patronos e Imperatriz e Mocidade idem ... a diferença é máxima no item autonomia pois mesmo quando massacram o Império ou Mangueira a escola não vira abóbora . Mesmo roubadas Portela e Salgueiro vivem e respiram .... elogiar e criticar é aqui , mas prefiro críticas reclamando principalmente contra plutocratas quando erram e evito muito elogios quando acertam pois já tem muita gente pendurada neste badalo dos donos da PLUTOLIGA .

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    10/11/2009 12:27:16Bosco GuimaraesMembro SRZD desde 16/09/2009

    NA MINHA OPINIÃ?O OS TRES MELHORES SAMBAS DO CARNAVAL CARIOCA 2010:IMPERATRIZ,BEIJAFLOR,NÃ?O SEI SE PELO CORAÃ?Ã?O,MAS VOU INCLUIR O DA MANGUEIRA.

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    10/11/2009 12:20:42Bosco GuimaraesMembro SRZD desde 16/09/2009

    TENHO A CONVICÃ?Ã?O QUE ESTOU COMENTANDO ATRASADO,MAS GOSTARIA DE DEIXAR UM LEMBRETE, POR QUE NÃ?O SE FAZ UM BELO COMENTÁRIO DESTE, QUANDO ACONTECE AO CONTRARIO,OU SEJA UM SAMBA MAL ESCOLHIDO,INCLUSIVE DANDO NOMES AOS BOIS,ACONTECE QUE NA MAIORIA DAS VEZES QUEM ESCOLHE Ã? O PATRONO DA ESCOLA,E AS OPINIÃ?ES LOGO SE ACOVARDAM,Ã? FÁCIL COMENTAR UMA VITÃ?RIA ONDE O Ã?BVIO ERA CLARO E EVIDENTE,VOU FICAR ESPERANDO AS NOTAS NA SAPUCAÍ,GUARDAR OS COMENTÁRIOS DE VOCÃ?S E EM FEVEREIRO RELEMBRÁ-LOS.UM ABRAÃ?OS A TODOS.

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    30/10/2009 15:01:57Carlinhos ImperatrizMembro SRZD desde 02/09/2009

    Em tempo: inclusive a sua escola não é tão insignificante assim, conseguiu dois vices campeonatos, perto da que ganhou 6 vezes no era sambódromo, pode se considerar alguma coisa!

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    30/10/2009 14:59:25Carlinhos ImperatrizMembro SRZD desde 02/09/2009

    Quem é Everton andrade, o que ele sabe de carnaval, ou que entende, um bom sambista nunca fala mau de esvola co-irmã, sem palavras para seu comentário chulo e insignificante, apesar que, pessoas insignificantes, falam coisas insignificantes e tem uma vida insignificante!

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    26/10/2009 12:26:57Everton AndradeMembro SRZD desde 26/10/2009

    credo isso é uma escola de samba ou é um terreiro samba que é bom nada e as fantasias..kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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    24/10/2009 21:49:13Marcelo de MelloMembro SRZD desde 05/07/2009

    Anderson, Parabéns pelo texto. Tenho certeza de que você foi movido, sobretudo, pela paixão por escolas de samba e que fica feliz quando elas fazem a coisa certa. Quem tem o mesmo sentimento, entende perfeitamente o que vc escreveu. Um abraço. Marcelo de Mello

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    23/10/2009 19:09:55Nil GuimarãesMembro SRZD desde 08/04/2009

    Caro, antenado. Não transfira pra mim a sua ira, rapá! E, veja bem os seus termos. Você já começa a entrar no âmbito da ofensa pessoal. Está me chamando de idiota. Eu acho que existiu, sim, um equívoco e tenho direito de expressar-me e defender meus pontos de vista, da mesma forma que você. Portanto, Antenado, não seja estúpido ao ponto de querer dizer-me o que eu devo, ou não devo achar de determinada situação. Quanto à sua postagem, transcrevo parte dela pra você â??lembrarâ?? os termos que usou.... Postado por:Antenado | 22/10/2009 21:33:44 - Nil e Amaury, menos, menos. Se a demonstração do colunista fosse de apreço pelo samba da Beija-Flor, que eu - diga-se de passagem - acho o melhor do ano, vocês não estariam emitindo esses comentários agressivos e até aleivosos, Saudações e perca essa postura arrogante, rapá. Quem é você pra vir dar-me lição de moral?

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    23/10/2009 16:22:15Ítalo FariasMembro SRZD desde 22/10/2009

    O cara falou o que quis....ofendeu, fez insinuações e depois veio com esse papo de "breve comentário"...só rindo mesmo. Se a imperatriz cometer erros, se a lantejoula da fantasia da Luíza cair, como vc disse, terá que ser evidenciado, certamente receberá crítica como qualquer outro erro, de qualquer outra escola. Da mesma forma que quando ocorre algo digno de elogio, este tem que ser feito. O samba é sensacional merece tds os elogios, e se o cara achou que é o melhor, é a opinião dele. Se vc acha que outro samba merece o mesmo adjetivo, cria um site, elabora um texto e posta lá. Assim vc vai estar expor sua opinião da mesma forma que o Anderson fez aqui. Não é difícil não, hj em dia qualquer criança cria um. Ã? melhor fazer isso do que querer censurar colunista.

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    23/10/2009 14:27:31julio_sanMembro SRZD desde 13/04/2009

    Não consigo entender o porquê de tanta celeuma se o o próprio SRZD avaliza o colunista ao anunciar, no canto inferior direitoda tela , Anderson Baltar Opinião sobre...Vamos todos ao Aurélio - Opinião sf 1.Modo de ver, pensar, deliberar. 2. Parecer, conceito. 3. Juízo, reputação. 4. Idéia, princípio. Quem está sendo incoerente afinal??? Só pra constar a Beija-Flor e a Imperatriz estão de parabéns! E o Nêgo hein? Que estrela e que maravilhoso intérprete, cravou duas finais numa só noite. Que bom que duas das mais bem conceituadas escolas, que já nos brindaram com desfiles memoráveis, vão desfilar com duas obras fenomenais. Sorte a todas e que vença a melhor.

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    23/10/2009 14:04:37Cecel AltaneirosMembro SRZD desde 13/08/2009

    Portanto, durma tranquilo, você não cometeu crime algum, você na verdade, falou o que milhares de pessoas que estavam presentes naquela noite áurea queriam expressar, você foi a "voz" da multidão, e qual é o prazer maior de um colunista? senão expressar o que está no coração e no consciente coletivo de seus leitores?. Escreva mais vezes assim, abra excessões, quebre o protocolo, descumpra as regras afinal você não fala de dentro de um campo de concentração nazista e ne para homens e mulhes despidos de sensibilidade e emoção, você fala de carnaval, de festa, de alegria, onde a fantasia, o proibido, se fundem em sorrisos, requebros, levando pessoas como eu e milhões a extravazar suas emoções. Por ironia do destino, você versou sobre uma Escola que traz um enredo que trata sobre a religiosidade, e vejo que quizeram de pegar pra Cristo amigo, não se preocupe, você ressuscitou milhares de sambistas por esse Brasil afora. Obrigado pela matéria!

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    23/10/2009 13:50:21Cecel AltaneirosMembro SRZD desde 13/08/2009

    Gostaria de parabenizar o Anderson pela matéria, como ele explicou no início, optou por uma linguagem coloquial, expressou e relatou com maior transparência possível tudo o que viu, ouviu e sentiu na final das eliminatórias leopoldinense. Foi ato de coragem, sim, receba meus aplausos, você foi fiel ao mar de emoções, não é de hoje que a Imperatriz causa esse tipo de incomodo, ela é uma escola cheia de falhas como tantas, errou muitas vezes, mas humanamente falando quem não erra? Saiba que vi em você mais que um observador e analista de sambas ou de carnaval, você é daqueles que honra o ofício que exerce, as críticas vêem justamente porque há pessoas que não entendem ou deturpam a mensagem, é até natural, em relação ao que se escreve, mas, partir pra ofensas pessoais, aí já é outro departamento, espero que essa sua atitude se reproduza, que você se sinta livre pautado na liberdade de imprensa, você enfatizou muito bem o momento que esta escolha de samba representou "Ã? a resposta definitiva para os saudosistas renitentes, que, a cada ano, decretam a morte do gênero samba-enredo. E a prova definitiva que o desejo de uma comunidade pode ser atendido, de uma forma clara, inteligente e, sobretudo, divina.". Foi uma votória do samba, uma vitória de milhões de brasileiros, que não entregam os pontos, que não aderem a outro gênero musical senão o samba, este é produto genuinamente de um país e de um povo cansado de ser tratado como sub-desenvolvido na máxima significação do termo.

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    23/10/2009 08:55:57Carlinhos ImperatrizMembro SRZD desde 02/09/2009

    Anderson, eu estive na quadra e deu aquela nostaugia, fiquei embriagado de emboção como a muito tempo não ficava, fiquei louco de emoção, vibrei, pulei cantei e a minha esperança voltou, só tenho a dizer que concordo plenamente com você, a Imperatriz é um mar de fiéis!

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    23/10/2009 01:35:00Felipe BernardoMembro SRZD desde 07/04/2009

    Perá lá! Que história é essa de "Cara, eu fiz um curto comentário"???? A mensagem foi apagada, mas lembro muito bem que o colunista foi acusado de ter se vendido à Imperatriz para que ele fizesse esta coluna. Fez merda, seja homem de assumir! Justifique que estava brincando, que se sentiu ofendido, qualquer coisa, mas assume o que escreveu pois aqui não tem criança. Cada um é resaponsável pelo que escreve.

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    23/10/2009 01:17:50Amaury LimeiraMembro SRZD desde 28/04/2009

    seu caminho e vai lá, bem adiante. E a Imperatriz? Onde anda? Quanto aos argumentos de que o samba da escola nos incomoda e que por isso estamos destilando nosso ódio, este, também, é digno de risos. Se eu, particularmente, tivesse que me incomodar com alguma escola por ter escolhido um sambão, essa escola seria a Vila. Não a Imperatriz que em praticamentetodos os sites e rodas de discussões figura como uma agremiação com um samba inferior ao da Vila e Beija. Ã? só se darem ao trabalho de pesquisar e verão se o que eu afirmo aqui é falso ou verdadeiro.

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