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06/01/2010 11h25

Milton Nascimento ressoa os seus 'Tambores de Minas'
Luiz Felipe Carneiro

 Milton Nascimento ressoa os seus 'Tambores de Minas' | Foto: Reprodução Encarte CD

"Valei-me profetas! Minas Gerais!" Com a sua voz em off, Milton Nascimento iniciava os shows da turnê "Tambores de Minas" com essas duas frases. Na verdade, o texto era uma resposta à imprensa e às pessoas que diziam que Milton Nascimento era portador do vírus da Aids, por conta de sua magreza. Desde que participou do extinto programa da Rede Globo "Sai de Baixo", no Natal de 1996, a "imprensa" não se cansou de publicar matérias dando conta de que Milton estava com o vírus HIV.

Doente de anorexia, Milton encontrou forças para se recuperar física e emocionalmente, e entrou em estúdio para gravar o álbum "Nascimento", lançado em maio de 1997. Com uma força de leão, o cantor se preparou para montar o show "Tambores de Minas", uma superprodução que contava com nove bailarinos, músicos que sempre estiveram ao seu lado, um cenário grandioso de Gabriel Villela (que também dirigiu o espetáculo) e figurinos gloriosos, mas pesadíssimos também.

No texto em "off", Milton Nascimento dosou as palavras e, ao mesmo tempo que exaltava Minas Gerais, demonstrou, de peito aberto toda a via-crúcis que havia percorrido nos últimos meses: "Fizeram de mim a voz de Minas, o cidadão do mundo. Depois... um atestado de óbito." Mas o texto também dava sinais de que Milton estava recuperado. Ao mesmo tempo, ele não perdeu a chance de dar uma merecida "banana" a quem era de direito: "Que restará na memória do meu povo? A violência dos ternos, traição dos fiéis, imprevidência dos sábios e minha própria cegueira de adivinho? Não. Restará a vitória, o meu salto mortal para dentro de uma nova vida. Deixo nas mãos das pessoas honestas e na ferocidade dos críticos minha própria cronologia e a geografia exata do meu coração - um lugar vivo de todos os contrários."

Finalmente, Milton Nascimento agradecia a seus amigos que "não deixaram que eu, prematuramente, me transformasse num pasto para os vermes". Depois disso nada mais podia haver na casa de shows além do silêncio, que era logo interrompido com a voz de Elis Regina na célebre gravação de "O Que Foi Feito Devera", presente no álbum "Clube da Esquina 2". O silêncio sepulcral permanecia - era possível notar muitas pessoas com lágrimas nos olhos - até que Milton Nascimento surgia ao fundo do palco e a plateia explodia em grande aplauso para celebrar a "nova vida" de Milton Nascimento, que cantava "Alertem todos alarmas / Que o homem que eu era voltou / A tribo toda reunida / Ração dividida ao sol". De fato, Milton, banda e bailarinos dividiam aquela ração luminosa chamada "vida" com o público.

No mesmo texto introdutório ao show, Milton Nascimento explicava que "Tambores de Minas" era "um inventário, baseado no meu imaginário pessoal, que transforma minha obra numa declarada reconciliação com a vida". E esse "imaginário pessoal" de Milton foi desenrolado em mais de vinte canções que longe de representarem os seus "grandes sucessos", cobriram diversas fases de sua carreira com maestria.

Após a dobradinha "O Que Foi Feito Devera / O Que Foi Feito De Vera", Milton relembrou "Cavaleiros do Céu" (versão em português de "Riders In The Sky", de Stan Jones, escrita por Haroldo Barbosa, e presente em seu álbum "Caçador de Mim", lançado em 1981). O sucesso "Calix Bento" (obra do Folclore Mineiro adaptada por Tavinho Moura), por sua vez, contou com os bailarinos batucando os nove "Tambores de Minas" dispostos ao redor de Milton, que ficava em cima de um grande tambor no centro do palco (uma espécie de altar) durante quase todo o espetáculo. Dando continuidade, "Paula e Bebeto" (composição de Milton e Caetano Veloso), que tinha os vocais divididos entre Milton e os bailarinos, elevava o show a sua temperatura máxima.

Na primeira parte do show, Milton ainda apresentava canções conhecidas ("Caçador de Mim", um dos momentos mais arrepiantes do show, com o solo vocal final de Milton), lados B ("Saudades dos Aviões da Panair", do disco "Minas", além de duas pérolas escondidas do "Clube da Esquina 2", "A Sede do Peixe" e "Léo", esta última com Milton nos teclados) e músicas de terceiros, como "Corsário", de João Bosco e Aldir Blanc, em uma clara referência à clássica versão de Elis Regina. Uma versão instrumental comovente, apenas com Milton na sanfona (o seu primeiro instrumento) e a apoteótica "Para Lennon e McCartney" (de Lô Borges, Márcio Borges e Fernando Brant) fecharam o primeiro bloco do espetáculo.

Após um intervalo de 15 minutos, a banda voltava ao palco junto com os bailarinos para a tradicional canção "Queremos Deus" (adaptada por Milton e Túlio Mourão). Aliás, aqui vale um parêntese para apresentar a excelente banda que acompanhou Milton Nascimento durante a turnê: Licoln Cheib (bateria e pesquisa de ritmos), Robertinho Silva e Ronaldo Silva (ambos na percussão e que, no decorrer da turnê foram substituídos por Marco Lobo), Paulo Guimarães (sopros), Luis Alves (baixo) e Kiko Continentino e Túlio Mourão (ambos nos teclados).

Após "Queremos Deus", Milton retornava ao palco todo vestido de branco (na primeira parte, o cantor se apresentava com uma roupa preta com detalhes dourados, para simbolizar o ouro de Minas Gerais) e interpretava algumas canções de "Nascimento", álbum que ora estava sendo divulgado. "Louva-a-Deus", "Rouxinol", "E Agora, Rapaz?", "Guardanapos de Papel", "Janela Para o Mundo" e "Levantados do Chão" (esta última, uma parceria de Milton com Chico Buarque, que contava com um belo efeito cênico, com centenas de bolinhas de ping-pong despencando em cima de Milton) abriam caminho para mais dois clássicos de Milton: "San Vicente" (do álbum "Clube da Esquina") e "Nos Bailes da Vida", as duas com os vocais divididos entre Milton Nascimento e seus afinados bailarinos.

A canção "Tambores de Minas", que contava apenas com a voz de Milton e o batuque dos tambores mineiros, dava continuidade ao espetáculo, que se encerrava com "Canções e Momentos", na qual Milton pôde demonstrar o amor pela sua profissão ("Há canções e há momentos / Em que a voz vem da raiz / Eu não sei se quando triste / Ou se quando sou feliz / Eu só sei que há momentos / Que se casa com canção / De fazer tal casamento / Vive a minha profissão") e novamente a voz de Elis Regina ecoava com "Redescobrir" enquanto Milton Nascimento, em uma espécie de "brincadeira de roda" abraçava cada um dos bailarinos. No bis, Milton Nascimento descia do imenso tambor, e cantava "Canção da América" mais perto de seu público.

Voltando ao texto de abertura, lá no finalzinho Milton dizia: "este show exprime sem qualquer piedade a minha verdadeira alma, perturbadora e desigual". Sorte do público que teve a oportunidade de assistir a tal show. Poucos artistas têm uma alma igual a de Milton Nascimento.


Segue abaixo o vídeo de "Paula e Bebeto", presente no DVD "Tambores de Minas - Ao Vivo":



Comentários
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    07/01/2010 16:54:07Rafael GonçalvesAnônimo

    Ã? um mistério de beleza magnífica, a redescoberta da voz da alma, toda vez que Milton abre caminho pra ela ecoar...

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