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27/01/2010 10h55

'Elis e Tom': Quando dois monstros sagrados se encontram
Luiz Felipe Carneiro

'Elis e Tom': Quando dois monstros sagrados se encontram

Carros, apartamentos, viagens? Nada disso. Em 1974, Elis estava comemorando dez anos na gravadora Philips. Por causa da data redonda, a gravadora queria presentear Elis com o que ela quisesse. A cantora, como não é boba nem nada, acabou optando por gravar um disco com o maestro Antonio Carlos Jobim - aliás, uma ideia original do produtor André Midani -, compositor que Elis Regina mais gravou em toda a sua carreira, seguido de perto pela dupla João Bosco e Aldir Blanc. Sábia decisão, que acabou gerando um dos grandes discos da carreira de Elis, de Tom e de toda a Música Popular Brasileira.

Um parêntese interessante aqui: em 1964 (exatos dez anos antes da gravação deste disco), Elis fez testes para estrelar o musical "Pobre Menina Rica", de Vinícius de Moraes e Carlos Lyra, na boate Au Bom Gourmet, no Rio de Janeiro. Tom Jobim acabou descartando a cantora - optando por Nara Leão -, dizendo que Elis ainda estava "cheirando a churrasco". Fecha parêntese.

Em seu livro "Música, Ídolos e Poder - Do Vinil ao Download", André Midani fala um pouco sobre a concepção do álbum. "Elis ia celebrar dez anos de carreira em 1974, aniversário que merecia de todos nós a maior atenção. Menescal e Armando Pittigliani, em particular, queriam produzir um disco espetacular, memorável! Porém... Qual? Essa era a questão. (...) Voltando aos dez anos de carreira de Elis, em consenso com Roberto Oliveira [administrador da carreira de Elis Regina], Menescal, Armando e eu pensamos que Tom Jobim seria o parceiro ideal para a celebração. O maior compositor do Brasil em dueto com a maior cantora do Brasil."

Aceito o convite, Elis e seu marido Cesar Camargo Mariano viajaram para a Califórnia, e quando lá chegaram já estava instalado um clima tenso no ar. Tom Jobim não concordava com o fato de Cesar ficar responsável pelos arranjos, além de implicar com o seu piano elétrico. Tom chegou até mesmo a ligar para os maestros Claus Orgeman e Dave Grusin, que não puderam participar do projeto, por falta de tempo.

Conformado com a situação, o disco começou a ser gravado, com Elis colocando voz praticamente ao vivo nas canções, e Tom tocando piano em algumas faixas e violão em "Chovendo na Roseira". O maestro Bill Hitchcock também participou do disco, regendo uma orquestra de cordas em 5 de suas 14 faixas. O acompanhamento ficou por conta dos músicos que acompanhavam Elis naquele ano: Hélio Delmiro (guitarra), Luizão Maia (baixo), Paulo Braga (bateria), Oscar Castro Neves (violão), além do próprio Cesar Camargo Mariano (piano elétrico e, eventualmente, piano acústico).

"Águas de Março", a primeira faixa do álbum, produzido por Aloysio de Oliveira e gravado nos estúdios MGM de Los Angeles, em fevereiro e março de 1974, talvez seja o dueto mais famoso da história da MPB. A canção já havia sido gravada anteriormente por Elis, mas o dueto com Tom consegue ser mais fantástico. Os dois casaram as suas vozes de uma maneira perfeita e espontânea, apesar do clima não muito favorável durante as gravações. Outros duetos de Tom e Elis também fazem parte do álbum. "Corcovado", além da voz, conta com o piano de Tom Jobim. As cordas regidas por Bill Hitchcock e o arranjo econômico de Cesar Camargo Mariano, com ênfase na voz da cantora gaúcha, fazem desta faixa outro grande momento do disco.

O famoso "Soneto de Separação", de Vinícius de Moraes também é outro destaque. As vozes dramáticas de Elis Regina e de Tom Jobim, somadas ao piano único do maestro, fazem da gravação uma das mais tristes do repertório de Elis. A última faixa do disco também é mais um dueto; mais do que isso, "Inútil Paisagem" é um encerramento perfeito. Apenas as vozes dos dois e o piano de Tom. Simples, econômico e magnífico.

Mas nem só de duetos vive "Elis e Tom". Se as músicas que têm a participação de Tom soam mais dramáticas, as faixas que contam apenas com Elis e sua banda são mais descontraídas e alegres. A impressão que fica é a de que, sem Tom ao seu lado, a cantora relaxou e se soltou mais. "Só Tinha de Ser Com Você", "Triste", "Brigas, Nunca Mais" e "Fotografia" são bons exemplos. Todas estas quatro faixas são mais puxadas para a bossa nova, sem o peso das cordas de Bill Hitchcock. A bateria sincopada e a batida característica de violão se sobressaem e a sonoridade fica bem mais leve.

Em outras faixas, como "Modinha" (com uma interpretação sensacional de Elis), "Retrato em Branco e Preto" e "Por Toda a Minha Vida", Tom participa com o seu piano. O resultado, como pode ser notado, é muito mais tenso, e completamente diferente das quatro faixas em que ele ficou de fora. Em "Chovendo na Roseira", Tom Jobim não só tocou piano, como também participa com o seu violão.

Em 2004, foi lançada a versão deste disco em DVD-áudio, com uma mixagem em seis canais (5.1), supervisionada por Cesar Camargo Mariano, a partir dos masters originais de oito canais. Além de todas as faixas do LP original, o DVD traz alguns diálogos entre Tom e Elis, além de uma versão alternativa mais rápida de "Fotografia" e a inédita (na voz dos dois) "Bonita".

Na contracapa do álbum, Elis Regina escreveu o seguinte texto: "Nos meus dez anos de gravadora, ganhei de presente um encontro com Tom. Foram momentos vividos por duas pessoas muito tensas, que só conseguem se descontrair através da música. Ficou a saudade de um passado recente, em que as cores eram outras e as pessoas mais felizes."

Trinta e seis anos depois, uma coisa é certa. Não foi só Elis que ganhou esse presente.


Faixas:
1)    Águas de Março
2)    Pois É
3)    Só Tinha de Ser Com Você
4)    Modinha
5)    Triste
6)    Corcovado
7)    O Que Tinha de Ser
8)    Retrato em Branco e Preto
9)    Brigas, Nunca Mais
10)    Por Toda a Minha Vida
11)    Fotografia
12)    Soneto de Separação
13)    Chovendo na Roseira
14)    Inútil Paisagem


E nunca é demais rever Tom e Elis interpretando "Águas de Março"...



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