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02/03/2010 10h58

CD: 'Amanhã' (Sá, Rodrix e Guarabyra) - A bola ainda rola no tempo dos nossos sonhos
Luiz Felipe Carneiro

CD: 'Amanhã' (Sá, Rodrix e Guarabyra) - A bola ainda rola no tempo dos nossos sonhos

"Outra noite fui acordado por um sonho triste em Copacabana / ... / Os dragões voando no espaço pelo trânsito de Copacabana / Quanto amor vendido aos pedaços numa lanchonete em Copacabana". Versos como esses são reconhecidos logo de imediato, tal qual a pintura de um pintor famoso ou a sinfonia de um Beethoven ou de um Mahler da vida. E esses versos não poderiam estar presentes em algum outro disco, se não o novo de Sá, Rodrix & Guarabyra. Novo? Sim. Notícias boas são raras, mas uma das melhores que tivemos recentemente foi a de que Zé Rodrix, antes de partir lá para o andar de cima, deixou um álbum inteirinho gravado ao lado dos seus parceiros Luís Carlos Sá e Guttemberg Guarabyra.

No início da década de 70, o trio lançou dois álbuns ("Passado, presente, futuro", de 1972, e "Terra", de 73), criando o que se convencionou chamar de rock rural, a grosso modo, uma espécie de mistura de música sertaneja da melhor qualidade com elementos do rock. Músicas como "Me faça um favor", "Mestre Jonas", "Azular" e "Hoje ainda é dia de rock" foram pioneiras nesse quesito e fizeram imenso sucesso na época. O trio se desfez, e Zé Rodrix dedicou-se à sua carreira solo, enquanto Sá & Guarabyra mantiveram a parceria. Cada um de seu lado, sucessos não faltaram: "Roque Santeiro" (tão inesquecível quanto a novela), "Jesus numa moto", "Casa no campo", "Espanhola", "Dona, "Ribeirão" etc. etc. etc.

No Rock in 3, realizado em 2001, o trio voltou, dando origem a uma grande turnê e o costumeiro projeto CD/DVD ao vivo "Outra vez na estrada". Entre maio e novembro de 2008, Sá, Rodrix & Guarabyra voltaram a unir as suas forças em estúdio para conceber um novo trabalho, absolutamente inédito, com a produção artística de Tavito. Sem gravadora, o álbum só chegou às lojas no início de 2010, mais de seis meses após a morte de Zé Rodrix.

Mas antes tarde do que nunca. "Amanhã" traz o trio na velha e boa forma. As letras viajantes, as melodias pegajosas, os belos arranjos vocais... Tudo isso está presente no novo disco, com a mesma alegria e a mesma qualidade do início dos anos 70. Sá, Rodrix & Guarabyra não têm mais nada o que provar para ninguém. Então, também não espere encontrar nada de muito diferente em "Amanhã".

Os destaques do álbum são "Logo eu, saudade" (musicalmente, a mais rica do álbum, com um belo arranjo de metais, a faixa de encerramento é uma espécie de "Casa no campo 2", com os versos "Tudo o que eu quero na vida é um lugar pra poder me abrigar / Uma morena, um bom vinho, um pedaço de mar"), a viajante "Sonho triste em Copacabana" (um "blues-rural" com um dos arranjos vocais mais lindos da carreira do trio), "Dia do rio" (a que mais remete às melodias compostas pelo trio nos anos 70) e "Cidades meninas", esta última mais parecida com a sonoridade anos 80 da dupla Sá & Guarabyra.

A pop "Caminho de São Tomé" gruda no ouvido - coisas de Zé Rodrix... -, assim como a balada "Nós nos amaremos", composta por Guarabyra. "Amanhece um outro dia", apesar do solo de guitarra meio clichê de Robertinho Gomes, vale pela sua melodia "espacial". A jazzy "Os dez mandamentos do amor" é outra que mostra que o trio manteve-se afiado mais de 35 anos após a sua estreia fonográfica.

E as suas canções continuam tão deliciosas como antes. Zé Rodrix ficaria feliz de ver esse CD nas lojas. Uma boa forma de homenageá-lo é pegar esse novo álbum (e também "Passado, presente, futuro" e "Terra") e colocá-lo para rodar em Visconde de Mauá. Não sei por que, mas tem tudo a ver...

Cotação: ****


Em seguida, a canção "Cidades meninas", em gravação amadora durante show do trio, no Ri, em janeiro do ano passado:



***** Étimo
**** Muito Bom
*** Bom
** Regular
* Ruim


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