SRZD


17/05/2010 13h13

Confira a sinopse do enredo da Alegria
Redação SRZD-Carnavalesco

A Alegria da Zona Sul divulgou no último final de semana durante a roda de samba que acontece semanalmente no novo espaço de ensaios e eventos, a sinopse do enredo "Os Doze Obás de Xangô". A ala de compositores é aberta e os sambas de enredo deverão ser entregues até o dia 20 de julho. As eliminatórias iniciam-se em agosto. A grande final está prevista para 1º de outubro. O enredo é de autoria do departamento de carnaval da agremiação e será desenvolvido pelo carnavalesco Lane Santana.
 
Confira a sinopse:
 
Título: "Os Doze Obás de Xangô"

Assim como o vento que sopra e ninguém vê, o tempo passa transformando tudo, às vezes sem ninguém notar...
O que fica é o que o vento traz e o tempo nos deixa impressos a sabedoria e o conhecimento vindos de outras épocas, como que trazidos pelo vento...

Foi assim que cheguei nestas terras: trazida pelo vento. Venho de outra época para deixar aqui um relato de minha missão. Vim predestinada: descendente de africanos, nascida em Salvador, escolhida pelos orixás. Chamo-me Eugênia Anna Santos - Mãe Aninha. Vou contar a todos minha história, que começa muito antes de meu nascimento...

Há muitas gerações passadas, em tempos incontáveis, havia uma terra chamada Oyó. Lá havia um rei. Xangô era rei de Oyó. O mais temido e respeitado de todos os reis. Mesmo assim, um dia, seu reino foi atacado por um grande número de guerreiros que invadiram sua cidade violentamente, destruindo tudo, matando soldados e moradores numa tremenda fúria assassina. Xangô reagiu e lutou bravamente durante semanas.

Um dia, porém, percebeu que a guerra tornara-se um caminho sem volta. Já havia perdido muitos soldados e a única saída seria entregar sua coroa aos inimigos. Resolveu então procurar por Orunmilá e pedir-lhe um conselho para evitar a derrota quase certa. O adivinho mandou que ele subisse uma pedreira e lá aguardasse, pois receberia do céu a iluminação do que deveria ser feito. Xangô subiu e, quando estava no ponto mais alto do terreno, foi tomado de extrema fúria. Pegando seu Oxê, machado de duas lâminas, começou a quebrar as pedras com grande violência. Estas, ao serem quebradas, lançavam raios tão fortes que em instantes transformaram-se em enormes línguas de fogo que, espalhando-se pela cidade, mataram uma grande quantidade de guerreiros inimigos. Os que restaram, apavorados, procuraram os soldados de Xangô e renderam-se imediatamente pedindo clemência.

Levados à presença do rei, os presos elegeram um emissário para servir-lhes de porta-voz. O homem escolhido foi logo se atirando aos pés de Xangô. Reclinando-se, pediu perdão. Humilhando-se, explicou que lutavam, não por vontade própria e sim forçados por um monarca, vizinho de Oyó, que tinha um grande ódio de Xangô e os martirizava impiedosamente. Xangô, altamente perspicaz, enxergou nos olhos do guerreiro que ele falava a verdade e perdoou a todos, aceitando-os como súditos de seu reino. Foi assim que ele ficou conhecido como o orixá justiceiro, aquele que perdoa quando defrontado com a verdade, mas que queima com seus raios os mentirosos e delinqüentes.

Após o desaparecimento do lendário rei Xangô e sua transformação em orixá, seus sacerdotes se reuniram a fim de perpetuar sua memória. Esses ministros, antigos reis, príncipes ou governantes de territórios conquistados pela bravura de Xangô, não quiseram deixar extinguir a lembrança do heroi na memória das gerações futuras.

Formou-se, assim, um conselho encarregado de manter vivo o culto ao rei de Oyó, organizado com os doze ministros que o tinham acompanhado em terra: seis ao lado direito e seis ao lado esquerdo. Seis para condenar e seis para absolver.

Esta história eu ouvi desde muito cedo, assim como outras, como, por exemplo, a chegada de meus antepassados aqui no Brasil...

Em suas mãos, sob suas unhas, restava, ainda, um pouco da terra da Mãe África; em seu peito a dor, a solidão, o medo e a incerteza. Em seu olhar o vazio. Atravessando o mar tenebroso rumo ao desconhecido, enfrentando tormentas sob condições desumanas. Para muitos a vida, longe da terra mãe, já não valia a pena. Os que aqui desembarcaram vieram sob o acalento da mãe do mar. Trouxeram em sua alma a saudade e junto com a saudade um tesouro que ninguém poderia tirar: sua cultura. Graças aos orixás encontraram forças para suportar tamanha injustiça.
           
Muitas histórias eram contadas no frio da senzala. Nasci em tempo de escravidão, porém nasci livre, escolhida por Xangô, pois trazia no peito o fogo sagrado daqueles que têm sede de justiça. Fui iniciada no culto da nação Ketu por Dona Marcelina de Xangô, no Candomblé do Engenho Velho, apesar de meus pais serem descendentes da nação Gurunsi.
 
Foi assim que recebi o nome de Obá Biyí, que quer dizer "Xangô Nasceu aqui, nesta terra". Conheci um Brasil em formação, Brasil de preconceitos e injustiças, Brasil onde as raças estavam se misturando e a cultura negra era marginalizada.
Como Iyalorixá fundei o Ilê Axé Opó Afonjá - "Casa de Força Sustentada por Afonjá" (uma das doze qualidades de Xangô). Estava dando o primeiro passo para a realização de minha missão...  Entretanto, ainda havia muito a ser feito. A missão divina de transformar o mundo através dos ensinamentos dos orixás ainda estava longe de acontecer, pois queria ver meus descendentes espirituais "usando anéis de doutores" aos pés de Xangô.

Foi assim que, auxiliada pelo Babalaô Martiniano Eliseu Bonfim, elo de ligação do Opó Afonjá com a Nigéria, instituí, no Novo Mundo, o Corpo dos  Obás ou Doze Ministros de Xangô, responsáveis pelo destino civil e religioso do Ilê, sendo inspirados e guiados pela sabedoria do grande rei de Oyó.
           
Os doze obás são divididos em duas falanges: seis da direita (Qtun) e seis da esquerda (Ési), representando os dois lados da justiça, assim como o Oxê, machado de duas lâminas de Xangô. Os obás da direita têm direito à voz e voto, os da esquerda, à voz. Os obás são especialmente chamados de "pai" pelos filhos de Xangô e sentam-se ao lado da Iyalorixá, como ministros ao lado de seu rei. Têm a missão de preservar as tradições religiosas e lutar pelo crescimento e pela respeitabilidade da religião africana.
 
Missão cumprida, eis que chegou a hora.... o momento em que Icú - "a morte" - me levaria para Orum - "o lugar de eterno recomeço" - para juntar-me ao meus dignos ancestrais. Do alto acompanho meu Ilê, meu legado, meus filhos... Assim como Xangô, o rei de Oyó, zela por seu povo do alto da pedreira...
           
Sigo em paz, ciente que meu trabalho teve continuidade através da luta incansável e abnegada de minhas sucessoras: Mãe Bada, Mãe Senhora, Mãe Ondina e Mãe Stella, sacerdotisas escolhidas pelos orixás após minha partida. Através de seus esforços o Ilê Axé Opó Afonjá prosperou e completou 100 anos de existência, possuindo, hoje, além da escola municipal, o Museu Ilé Ohun Lailai - "Casa das Coisas Antigas".

Minha maior alegria foi ter visto, ao longo do tempo, grandes expoentes da cultura e da política como Dorival Caymmi, Carybé, Pierre Verger, Jorge Amado, Gilberto Gil, Antônio Olinto, Muniz Sodré, Ildásio Tavares, Antonio Luis Calmon, Camafeu de Oxóssi, Antonio Albérico Santana, Mário Cravo, Vivaldo Costa Lima, Demeval Chaves entre outros, serem iniciados como Obás de Xangô para que se tornassem a voz do "fogo e do trovão", a voz da justiça e da retidão. Protetores da cultura afro-brasileira.
 
Para que cada um receba apenas aquilo que por direito lhe pertença. Nem Mais, nem menos...
 
Como o vento meu tempo passou...Através dos doze Obás de Xangô minha obra ficou imortalizada...em honra ao Pai da Justiça. Eugênia Anna Santos - Mãe Aninha de Afonjá - Iyá Obá Biyí
 
Sabemos que muito trabalho resta a ser feito, mas através da proteção de Xangô conseguiremos, enfim, ter um mundo mais justo para todos os povos, com perfeito entendimento e igualdade entre todas as raças, culturas e religiões, basta que para isso cada um de nós assuma sua missão de obá da justiça, de Obá de Xangô.

Este é o engajamento da Alegria da Zona Sul para o Carnaval 2011.

JUSTIÉA!!!
 
No centenário de criação do Ilê Axé Opó Afonjá, levaremos esta hirstória para a avenida, fazendo com que o legado de Mãe Aninha, esta importante expoente de nossa cultura,  seja conhecido por todos.
 
Carnavalesco Lane Santana
Departamento de Carnaval


Comentários
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    25/05/2010 21:57:06Antonio CarvalhoMembro SRZD desde 07/04/2009

    SOU ADEPTO DA RELIGIÃ?O AFRO E Ã? SEMPRE IMPORTANTE TRZERMOS UM POUCO DA NOSSA CULTURA PARA O CARNAVAL QUE SEMPRE TEM MILHOES DE ESPECTADOR PARA CONHECER MELHOR NOSSA RELIGIÃ?O SEMPRE DE UMA FORMA QUE NÃ?O DENIGRA A IMAGEM DA RELIGIÃ?O. SE A IGREJA CATÃ?LICA PERMITISSE ENREDOS SOBRE ELES AS IGREJAS TERIAM MAIS ADEPTOS COM CERTEZA.

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    22/05/2010 16:44:50DeniseMembro SRZD desde 08/04/2009

    Belíssimo enredo. Ã? o tal enredo que pode passar "quatrocentas" vezes na Sapucaí que sempre vai ser show. Parabéns, minha ALEGRIA. Pra cima deles.

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    21/05/2010 10:49:24Ricardo FrançaMembro SRZD desde 19/02/2010

    Estamos todos ansiosos torcendo para chegar logo o dia 6 de agosto , dia da apresentação dos sambas . Já tem gente apostando que vai dar mais de 20 sambas !

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    20/05/2010 18:14:56Alessandro LeiteMembro SRZD desde 24/04/2009

    Vlw, Pixulé.....a diretoria do Alegria Agradece.....e também parabéns, pelo belíssimo premio sambanet e também pela voz surpreendente...felicidades.

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    20/05/2010 14:07:09[email protected]@vio2010Membro SRZD desde 10/01/2010

    FORMDIDÁVEL...DIGNO DE UMA ESCOLA DO GRUPO ESPECIAL...ATÃ? MELHOR AS VEZES!

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    20/05/2010 10:31:46pixuléMembro SRZD desde 21/10/2009

    ATÃ? AGORA ESTÁ SENDO O MELHOR ENREDO DE CARNAVAL... PARABENS ALEGRIA!!!

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    19/05/2010 11:22:55magali tavaresMembro SRZD desde 28/09/2009

    Carnaval é cultura. Fico muito feliz com estes enredos. O ser humano precisa conhecer a existencia dos seus ancestrais e a raiz da sua existencia. Agora é esperar o desenvolvimento do enredo e a letra e melodia do samba, porque história tem. Boa sorte Alegria da Zona Sul, parabéns. Rumo ao proximo campeonato.

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    18/05/2010 19:44:03Ricardo NetoMembro SRZD desde 18/04/2010

    Bom ate agora é o melhor enredo parabéns alegria.

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    18/05/2010 15:09:56tamborimMembro SRZD desde 05/11/2009

    Estou bem curioso para conhecer a safra de sambas que a Alegria irá apresentar!!!

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    18/05/2010 15:08:51tamborimMembro SRZD desde 05/11/2009

    Ã? a Alegria esta voltando a suas oringens Afro!!!

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    18/05/2010 12:53:16gilberto da silva reisMembro SRZD desde 01/03/2010

    eu fiquei muito feliz e emocionado com esse enredo falando do surgimento do ilê axé opó afonjá,sendo eu um praticante do candomblé, fico feliz quando uma escola de samba homenageia nossos ancestrais e nossa cultura. parabens a alegria da zona sul por essa aula sobre pai xango, sobre os doze obás e principalmente pela vida de mãe aninha, a matriarca do ilê.

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    18/05/2010 10:52:59RenioMembro SRZD desde 07/04/2009

    realmente uma bela sinopse, contada em 1º pessoa, enredo afro, forte, como assim trouxe a imperio da tijuca em 2010,,,,,,,,,,mesma linha, conta a historia de um "guerreira" afro, e tb contada em 1º pessoa,,,,,,,,,,,,,renderá tb um belo samba,,,,,,,,,,,,,,,,,,Parabéns a Alegria, mais pra mim não é novidade, remete muito ao enredo traxido e desenvolvido com maestria pelo Jacks

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    18/05/2010 04:56:08tamborimMembro SRZD desde 05/11/2009

    Oi galera visitem meu blog tamborimdovini.blogspot.com e saibam qual o novo enredo da Unidos de Padre Miguel entre outras notícias do mundo do samba.

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    17/05/2010 23:35:07WILLIAMMembro SRZD desde 03/02/2010

    Na minha opinião o melhor tipo de enredo para uma escola de samba é o afro,somos um país negro(Graças a Deus),enredos africanos tem a cara do carnaval!!!!

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    17/05/2010 22:51:39Felipe IlhaMembro SRZD desde 07/04/2009

    Magnífico, um enredo excepcional !!

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