SRZD


06/06/2010 02h11

Por onde anda você, história?
Walter Nicolau

Começam a surgir os temas para o novo desfile de cada uma das nossas escolas de samba para 2011 e tudo aponta para uma repetição de direcionamento dos últimos carnavais. Teremos novamente enredos biográficos, talvez venham também alguns geográficos ou quem sabe, algum novo devaneio e tudo já me parecem repetitivo. É claro que dentre esses assuntos poderemos ter uns com conteúdo mais rico que outro, mas a sensação de mesmice no modelo já começa a me incomodar o íntimo, sedento de conhecimento e aprimoramento cultural.

Os ditos enredos afros, com seu conteúdo histórico sempre presente, tem sido minha tábua de salvação há algum tempo, excetuando-se alguns pouquíssimos exemplos de temas que nos fizeram conhecer um pouco mais sobre alguma coisa. Por onde andaram os pensadores que nos fizeram conhecer CHICO REI, ZUMBI, CHICA DA SILVA e tantos outros heróis nacionais? Por onde andam os temas históricos que tanto enriqueceram o conhecimento nacional?

Vindo de desfiles que tratavam temas enriquecedores de conhecimento, começo a me sentir órfão dentro da maior cultura do meu país e não sei se isso é um sentimento individualista ou se realmente os desfiles tem que viver um outro estágio que eu não consegui me enquadrar.

A tanta coisa do nosso país que ainda falta ser contada ou rediscutida, seja lá do seu início, seja da sua modernidade, que me faz questionar porque sei muito mais sobre o rock and roll do que da moda de viola. Queria saber mais sobre a Inconfidência Mineira ou até discutir sobre o que sei, já que me venderam Tiradentes barbudo e cabeludo e hoje sei que ele não a usava e era totalmente calvo e que havia dentre os inconfidentes muito mais personagens interessantes, inclusive várias mulheres, por exemplo.

Apesar de sermos considerados jovens como nação, somos donos de uma riqueza sem fim historicamente falando e estamos deixando de contar isso tudo, culturalmente para nossos jovens, os mantenedores do nosso povo. É claro que o moderno é interessante, é claro que vale falar do subjetivo, do imaginário, das personalidades, mas será que para isso temos que abrir mão da transferência de conhecimento que o histórico nos proporciona?

Venho alimentando o desejo de novamente poder ver o público que assiste, seja na avenida ou pelos meios de transmissão chegar ao final do desfile de uma agremiação, não apenas deslumbrados com a riqueza das alegorias e fantasias, mas com a sensação de enriquecimento do seu conhecimento e que o tempo que dedicou a assistir ao desfile fique registrado na sua mente, não apenas pelas imagens e muito mais pelo conteúdo da mensagem. Voltar a ver a letra de um samba enredo ou uma sinopse, texto de interpretação de uma prova pedagógica ou de discussão em uma sala de aula.

A introspectiva do meu texto, não carrega nenhum saudosismo em relação aos desfiles de outrora, muito pelo contrário, sou extremamente favorável a modernização que o carnaval sofreu, porém, acredito que a forma de execução poderia ser enriquecida com as temáticas que tanto nos fizeram apaixonar por essa manifestação, que é o de transferir conhecimento com alegria, através do canto e da dança de um povo.


Comentários
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    08/09/2010 19:56:57Luiz CarlosMembro SRZD desde 01/09/2010

    Saudações, Sr. Walter. Não vou comentar o seu texto, a não ser pra dizer que está ótimo como sempre. Quero é fazer duas perguntas, já que o fale conosco do site parece que não existe. O Sr., como diretor de marketing, do Cubango sabe me informar o porque de não se poder acompanhar os sambas da escola com comentários, como em outras tantas ? Ã? um pedido da agremiação, uma determinação do site ou o que ? Outra coisa: Existe uma parceria 19 concorrendo na mesma escola e este samba me parece o único que não consta no site ainda. Porque ? Sabemos que ele entrou "por baixo dos panos" na disputa mas, é o único que não pode ser acompanhado no site ? Desde já, agradeço.

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    09/08/2010 15:04:14jorge alfredo de paulaMembro SRZD desde 22/02/2010

    FESTA DE LANÃ?AMENTO DA VOLTA DO BLOCO CARNAVALESCO UNIDOS DA VILA JARDIM DIA 07 DE SETEMBRO DE 2010 A PARTIR DAS 15:00 H LOCAL: CAMPO DO G.A. 40 AO LADO PREZUNIC VILA JARDIM CAMPO GRANDE COM VARIAS ATRAÃ?Ã?ES E UMA GRANDE RODA DE SAMBA COM OS MELHORES SAMBISTAS DA CIDADE ONIBUS 846,847 E KOMBIS NA RODOVIARIA DE CAMPO GRANDE Contato Jorginho tel:8639-3215

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    08/06/2010 12:17:29HEITOR DOS PRAZERESMembro SRZD desde 07/04/2009

    Tudo começou a cerca de dez anos atrás, quando numa fatídica reunião na LIESA, ficou decidido que os enredos não tinham mais a obrigatoriedade de serem genuinamente brasileiros. Tive medo do que viria a acontecer, e foi só esperar. Aos amigos que criticam o saudosismo, estes com certeza não viveram uma época onde três, cinco, quinze anos depois, ainda se discutia se o samba do Império era melhor ou não que o do Em Cima da Hora, ou o enredo da Portela fora ou não abordado da maneira correta. Hoje, mal nos lembramos do samba do ano passado (até porque são jingles), e com dois anos sequer lembramo-nos do enredo (enredo???). Não pensem que sou contra o modernismo, evoluir plasticamente é natural: materiais novos, outros até então caros, baixam o custo... O que acho é que o caminho atual é muito perigoso, é só um acúmulo de imagens e efeitos, somados a essa onda de â??Ã? segredoâ?, â??Ã? de arrepiarâ?, isso nem enredo é. Enredo vem do radical â??redeâ?, é enredar, tornar contínuo. O que vejo são somente â??temasâ?, que providencialmente são dispostos de maneira em que qualquer coisa que se coloque na avenida faça sentido. Observando-se as notas dos últimos anos, se percebe que onde mais se perde pontos são em alegorias/adereços, fantasias e enredo. E onde menos se perde são em harmonia, bateria e MS/PB. Logo, o que realmente interessa hoje (até aos jurados), é plástica, esquecendo-se que o espetáculo é cultural e principalmente folclórico e toda essa base foi deixada de mão. Na prática, hoje, já vivemos essa realidade, o desfile se transformou em um CONCURSO DE ALEGORIAS, nada mais desperta a atenção nem a expectativa. Com esse caminho merchandising, logo deixaremos de ser o maior espetáculo da Terra, e perderemos nossa própria identidade. Acho que a Gde. Rio e a Tijuca apesar de serem visualmente bonitas, estão erguendo o estandarte do túmulo do samba. Viva a cultura nacional!

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    07/06/2010 19:00:44Rafael RamosMembro SRZD desde 15/09/2009

    Essa falta de grandes enredos é simplismente a falto de dinheiro nas escolas. Hj em dia tudo esta sendo feito na base do patrocinio! Sinto muito falta dos enredos ludicos ate pq carnaval é isso... que pena mais uma das raize indo embora!

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    07/06/2010 17:46:08David Daniel MacêdoMembro SRZD desde 07/06/2010

    corrigindo: 'até os enredos sobre "coisas" ERAM apresentados de forma criativa'

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    07/06/2010 17:43:31David Daniel MacêdoMembro SRZD desde 07/06/2010

    Antigamente, quando não tinha o "problema" do patrocínio, até os enredos sobre "coisas" serem apresentados de forma criativa, contando história e fatos importantes envovendo a tal "coisa". Ã? o caso do Tititi do Sapoty, da Estácio de 87. Aprendemos muito sobre a história do brasil e a corte portuguesa com aquele enredo da Rosa Magalhães e Licia Lacerda. Hoje em dia, com a influência do patrocinador, somos obrigados a engolir o bacalhau que o patrocinador enfiou pelas nossas goelas e pela goela da Rosa na Imperatriz em 2007.

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    07/06/2010 16:20:33Luiz RangelMembro SRZD desde 13/04/2009

    Muito pertinente o comentário acima, uma vez que estamos na era dos enredos temáticos, não discuto nem os patrocinados, ou não mas aqueles puramente temáticos como segredo, desejos da humanidade, arrepio, etc... Esse tipo de enredo ganha força na medida que tudo, ou quase tudo pode ser inserido no desfile para deleite dos olhos de quem assiste. Pode-se trocar roupa em tempo recorde, fazer super herói escalar rampa, carro pegar fogo, homem gelo de comissão de frente, críticas ao holocausto, aranhas, etc... sem se importar com uma linearidade de fatos, uma vez q o enredo não tem nenhum compromisso com a história com, o fator tempo, pois trata-se de uma miscelânea de assuntos dentro do tema. Pra quem acha q o enredo histórico morreu, ninguém mais quer assistir, vale a pena dar uma passada no site da ala de compositores da Imperatriz Leopoldinense (por exemplo) e conferir obras maravilhosas, sambas geniais que nasceram da história , de enredos puramente Brasileiros em sua legitimidade. Se a LIESA quer homologar essa tendência de enredo temático multi-assuntos internacionais, cinematográficos, ela estah apontando para uma descaracterização dos desfiles das escolas de samba, que a meu ver possuem a partir de suas fundações como uma das missões pioneiras, a fomentação da cultura nacional, desse país rico em história, rico em beleza natural, personagens, artes, etc...

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    07/06/2010 14:54:55decio_mocidadeMembro SRZD desde 03/07/2009

    ...(Continuação): se orgulhar de ver, através de suas escolas de coração, do Brasil, que eles só conhecem academicamente.

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    07/06/2010 14:39:07decio_mocidadeMembro SRZD desde 03/07/2009

    Correção: ...O Brasil não tem só 510 anos....

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    07/06/2010 12:07:55decio_mocidadeMembro SRZD desde 03/07/2009

    Pelo tamanho do Brasil, a construção de suas fronteiras geográfica, políticas, culturais, faz com que nosso país seja um imenso repositório de informações, teses, histórias e estórias, um "calderão" borbulhando a espera por leitores, espectadores, aprendizes. Mas, a leitura (no seu sentidfo literal) é pouco incentivada, é mais fácil ouvir alguém falando, ou ver imagens, mesmo que representativas de algum fato ou idéia, para as pessoas tenham conhecimento de algum fato. Isso faz com que o audio-visual do carnaval seja um sucesso. Quando se fala, por exemplo de Rosa Magalhães e seus enredos "históricos" e ser relatado desde veículos de comunicação até a "conversa de botequim, que são enredos ultrapassados, é no mínimo de uma falta de capacidade das pessoas quererem ver o "novo" através do antigo. Pude ler, ultimamente, um livro que retrata um mundo maçônico dentro da "criação" dos Estados Unidos, uma riqueza de informações num pais que tem sua miscigenação (vulgarmente dito como descobrimento) iniciada quase em paralelo com a do Brasil. O Brasil não tem só 5010 anos!!! Mas se nós atermos somente nesses 510 anos últimos da história brasileira, aliada com a pouca capacidade das pessoas se nutrirem de conheciementos históricos/culturais do passado, temos uma vastidão de temas inéditos ou que possam ser reapresentados....O que eu conheço, minha filha não conhece! Então a renovação dos enredos, podem ser cíclicos, por que sempre haverá pessoas que gostariam por exemplo de ouvir falar de como o Brasil foi "descoberto", as histórias de Vasco da Gama, as viagens de Dom Pedro ao encontro da Marquesa de Santos (do centro do Rio antigo passando pela Zona Oeste do passado, por exemplo), das histórias místicas do índios, os verdadeiros "Donos da Terra", enfim se estamos "cançados" de ver e ouvir essas histórias, é por que já ultrapassamos nossa fase de aprendizado delas, mas têm os "novos" espectadores que podem se orgulhar

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    06/06/2010 22:58:01Claudia AmorMembro SRZD desde 06/06/2010

    O problema é que o carnaval virou leilão, quem dá mais,o carnaval sumiu, oque existe hoje em dia é só uma forma de se anunciar marcas! Quem sou eu pra criticar, até por que cada escola sabe onde o calo do seu sapato aperta.l Só estou constatando o que tá na cara. Pra mim as escolas nem estão certas nem erradas,não as julgo, pois como empresas que são, elas tem que pagar funcionários e obter dinheiro $$$ para seus desfiles.

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    06/06/2010 22:30:31Ronaldo MartinsMembro SRZD desde 24/11/2009

    Meu caro Walter Nicolau somos um número imenso de adeptos desse formato para os enredos das agremiações. Grandes exemplos foram citados abaixo. Qtas pessoas, através de enredos e dos desfiles propriamente dito, conheceram um pouco de Anita Garibaldi, Monteiro Lobato, a fuga dos reis de Portugal em face da ameaça de Napoleão, Chica da Silva, aprenderam um pouco sobre a Revolução Francesa, as belezas da nossa Amazônia, Carmem Miranda, enfim, muitas emoções e muita bagagem de conhecimento. Isso acabou! Não vale a pena. Algumas agremiações ainda tentam, mas ... . Quando a LIESA exigir que as agremiações comprovem que o orçamento para realizarem seus carnavais não ultrapassou a verba liberada, aí sim, vai valer a criatividade para desenvolver belos enredos históricos. Vamos acreditar.

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    06/06/2010 16:34:47ThallysMembro SRZD desde 05/06/2010

    ááááááááaááááááááááááááa áááááááááahaaaaahaaahaahahhaaaa haaa !!!!!!! esse cara tá mto loco, bichto ! Não é préconceito , + ninguem aguenta + esse tipo de enredo . Vái t lascá , ô !!!!!!!!!

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    06/06/2010 13:43:19Renato de SouzaMembro SRZD desde 08/04/2009

    Caro, Walter Nicolau, o desejo que você alimenta no penúltimo parágrafo do seu texto é bastante aderente, manifesto e sintomático. Pois ele vai ao encontro dos anseios de todos aqueles que também clamam por ver na avenida enredos de cunho cultural, com um rico e admirável conteúdo histórico, e que atendam, sobretudo, as nossas maiores expectativas. Porém, como bem frisou o companheiro abaixo, ao analisarmos a atual conjuntura do carnaval carioca onde temos, entre outras coisas, as Escolas de Samba travando uma verdadeira corrida em busca do ouro (de grandes patrocínios) para bancar desfiles cada vez mais milionários, mas nem sempre substanciais, atrativos e convincentes, alimentar esse desejo chega a ser mesmo uma utopia. Como hoje em dia, salvo raras exceções, o patrocínio, mas do que uma necessidade, virou a única solução para pôr um carnaval competitivo na avenida, ao ponto de algumas Agremiações até oferecem refrões de seus sambas-enredo para merchandising, fica muito difícil e quase que impossível remar contra essa maré. Daí, meu caro, sob esse aspecto, qualquer enredo do quilate de uma â??Catarina de Médicis na corte dos Tupinambôs e Tabajeresâ?? (Imperatriz Leopoldinense/1994) ou de um â??Brasil com "Z" é pra cabra da peste, Brasil com "S" é nação do nordesteâ?? (Mangueira/2002), por exemplo, perde a força e não tem vez diante do pe$o e da importância ($) de um "desnutrido" e não menos descarado â??Alimentar o Corpo e a Alma Faz Bemâ?? (Grande Rio/2005). Infelizmente!

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    06/06/2010 10:50:03Amaury LimeiraMembro SRZD desde 28/04/2009

    Ã?, meu caro, Walter. Infelizmente o seu desejo, na atual realidade carnavalesca, é quase utópico. Como dizia Cazuza: â??ideologia, eu quero uma pra viverâ?, já que hoje, seja no carnaval, seja na religião, o que conta, o que faz a diferença (quase sempre pra baixo) é â??a verbaâ?. Sem sombra de dúvidas que tem-se muito a contar, a desvendar, a recontar. Mas, tais temas e/ou enredos são â?? antes de belos, ricos e muito mais atraentes -, caros, já que praticamente inviabilizam patrocínios por não terem tanta abertura aos merchandisings comerciais. Logo, entre um Tiradentes e toda a sua saga histórica e o azeite Tiradentes e suas altas vantagens comestíveis, opta-se pelo famigerado azeite, lamentavelmente. Não vejo a escassez de enredos culturais como falta de criatividade. Ã?, isso sim, falta de interesse das diretorias das agremiações em se negarem a ser outdoors, em deixar de se prostituírem por alguns caraminguás. E, assim, o samba sambou ou, vai sambando, muito desengonçadamente, diga-se de passagem.

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