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14/07/2010 15h12

'Os três malandros in concert': a 'sambópera' de Dicró, Bezerra e Moreira
Leonardo Guedes

A Copa do Mundo da Itália, em 1990, pode ter sido ruim dentro de campo, com uma das piores médias de gols da história e pela consolidação do chamado futebol-burocrático (em detrimento do futebol-arte), mas fora de campo apresentou uma novidade bem legal: o encontro entre os tenores Luciano Pavarotti, José Carreras e Plácido Domingo, em uma apresentação nas Termas de Carcalla, em Roma, antes da partida final do torneio. O sucesso foi enorme: "Os 3 tenores in concert" vendeu milhões de discos em todo o mundo, conduziu o trio de música erudita à condição de celebridades pop (em especial para o carismático Pavarotti) e criou uma tradição de shows que antecederam o último jogo da Copa durante a década de 1990. O auge foi em 1994, nos Estados Unidos (com uma inesquecível interpretação do trio para "Aquarela do Brasil", de Ary Barosso, que serviu de aperitivo para a conquista do tetracampeonato da Seleção Brasileira) e o ocaso foi em 1998, com um melancólico espetáculo aos pés da Torre Eiffel, na França. A morte de Luciano Pavarotti, em 2007, acabou de vez com o costume.

Aqui no Brasil houve um trabalho musical bem parecido. só que no lugar dos três tenores, entraram os três malandros: Moreira da Silva, Bezerra da Silva e Dicró. O irreverente encontro resultou no disco "Os três malandros in concert", lançado pela gravadora Cid em 1995. As escadarias do Teatro Municipal, no Centro do Rio, serviram de cenário para as fotos de capa, com direito a uniforme de gala para os trio de sambistas. Malandragem total.

Efetivamente, a obra só teve quatro faixas gravadas especialmente para o encontro, produzidas por Esdras de Souza Pereira e com arranjos musicais de Jaime Alem. As outras nove são gravações de outras épocas feitas em separado por Dicró, Bezerra e Moreira, o que não tira a originalidade da proposta, explicada na primeira música, "O Recital" (Dicró, Martins e Donduque) que começa com acordes de violino típico de concertos de ópera, mas prossegue mesmo é com cavaquinhos, banjos e tantãs: "É o maior show do ano, esse grande recital / Dicró, Bezerra e Moreira cantando no Municipal". O grupo não perde a fanfarronice de tirar onda com os tenores nas outras faixas. Como em "Os três pagodeiros do Rio", cujo clipe pode ser conferido no fim desta resenha. No início do 'sambópera", eles "apelam" para reminescências do passado.

Eles ainda mandavam ver em "Épera do morro", composta por Dicró e Pongá ("Estou desafiando na minha área só para quem pode / Quero ver Pavarotti, Domingo e Carreras cantando pagode") e em "Três malandros in concert", da mesma dupla, onde Dicró se estranha com o tenor (confira no outro vídeo).

Nas outras faixas, os três oferecem o melhor da malandragem no pagode. Dicró e Bezerra fazem dueto em  "Ressucita ele" (Claudinho Inspiração e Evandro do Galo): "Ressucita ele, meu Deus, manda esse cara pra cá / E que esse safado me deve uma grana e morreu de bobeira pra não me pagar", com direito a alfinetada na discutível distribuição dos direitos autorais para os artistas brasileiros no meio da música.

Na época do lançamento, Dicró estava embalado pelo sucesso de seu disco "O bingo da sogra" e aproveitou três músicas deste trabalho em "Os três malandros in concert", todas com Pongá. O sambista encontra o culpado por um fantasioso fracasso eleitoral em "O político" (composição dele e de Pongá), após farta distribuição de material de construção e tijolo: "Hoje eu tenho os meus motivos para estar contrariado / Porque eu só tive um voto / Mesmo assim foi anulado / Só tem gente canalha, como tem gente ruim / Nem a minha mãe votou em mim... Traidor, traidor / Se tem coisa que não presta, é o tal do eleitor". Expõe humor politicamente incorreto em "Dava dois", ao descobrir que a companheira é dependente química: "Só vivia com o olho vermelho / Falava gíria que eu não entendia / Só vivia falando em papel / Mas nem ler ela sabia / É porque ela dava dois e eu não sabia". E ainda explana as confusões da vizinhança em "Rua da amargura": "Vou mudar daquela rua / Eu já não aguento mais / Lá tem muito caloteiro e mulher que passa homem pra trás / Vou mudar de lá, vou mudar de lá / Ali só quem presta sou eu / Que tenho um nome a zelar".

Se o problema de Dicró era com os vizinhos, Bezerra da Silva contou a desgraça de um amigo em "Lugar macabro" (Efson e Wilson Medeiros): "Mas que lugar macabro / Meu amigo foi morar / Ainda me disse sorrindo / Que a felicidade existia por lá... Eu vi cobra correndo de sapo, malandro / Naquele maldito lugar / Vi o Drácula correr do coveiro / Porque o seu sangue queria sugar...". Intérprete de sambas e pagodes de partido-alto que relatavam o cotidiano da criminalidade no Rio de Janeiro e querido por várias tribos musicais, em especial os roqueiros, Bezerra fazia jus à fama em "Malandro não vacila", composição de Julinho: "Malandro não cai, nem escorrega / Malandro não dorme e nem cochila / Malandro não carrega embrulho / E também não entra em fila".

E o saudoso Kid Morengueira não fazia feio. Nas faixas do inusitado "recital", esbanjava bom humor apesar da voz já fragilizada pela idade: "Eu, Moreira da Silva / Com minha voz de veludo / Chego a quebrar cristais / Quando dou o meu agudo". De sua lavra, contribuíram para o disco "Chave de cadeia"(composição dele e Geraldo Gomes), "Jogando com o capeta" (com Ribeiro Cunha) e o sucesso "Na subida do morro", samba de breque onde faz o antólogico e cômico relato de uma peleja armada: "Na subida do morro me contaram / Que você bateu na minha nega / Isso não é direito, bater numa mulher que não é sua / Deixou a nega quase nua...).

"Os três malandros in concert" é garantia de boas risadas. Além dos vídeos já citados, segue também a interpretação dos três tenores para "Aquarela do Brasil", em 1994, para matar um pouco as saudades dos fãs de Pavarotti.

 


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