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13/10/2007 00h57

Aplausos na hora da despedida
Da Redação

No último adeus, aplausos. O corpo do ator Paulo Autran foi cremado, por volta das 12h30 deste sábado, no crematório da Vila Alpina, na Zona Leste de São Paulo. A cerimônia de cremação contou com a presença de parentes e amigos do ator. Cerca de cem pessoas acompanharam a despedida a um dos mais talentosos atores do país, entre elas os atores Juca de Oliveira, Marília Pêra e Cecil Thiré.

A mulher de Autran, Karin Rodrigues, disse que o ator havia pedido que a cerimônia não tivesse cunho religioso. "Ele sempre foi muito positivo, acreditava na arte e na boa vontade dos homens, mas era cético", contou.

Aproximadamente 80 veículos seguiram o cortejo pelas ruas de São Paulo. O corpo deixou a sede da Assembléia Legislativa, na Zona Sul, onde estava sendo velado, às 11h, sob aplausos. Antes da saída do corpo, o ator Juca de Oliveira falou sobre a vida e obra de Autran, destacando as inúmeras peças feitas e a contribuição dele para o teatro brasileiro. Na despedida, estavam em volta do caixão a esposa do ator, Karin Rodrigues, Juca de Oliviera e Marília Pêra, entre outros artistas.

Público teve acesso ao velório na noite desta sexta

O velório do ator foi aberto ao público às 22h30 desta sexta-feira, quando havia cerca de 50 pessoas no local. Uma das presentes era a viúva do ator, Karin Rodrigues, que estava bastante emcionada. "O teatro brasileiro ficou mais pobre e a minha vida também. Ele é insubstituível e vai fazer muita falta", disse.

Karin lembrou que Autran, vítima de câncer no pulmão, fumou a vida inteira e só diminuiu a quantidade de cigarros já doente. "Ele queria que todos soubessem que ele morreu por causa do cigarro", contou a viúva.

A amiga e uma das principais parceiras de Autran no teatro, a atriz Tonia Carrero foi uma das primeiras a prestar as últimas homenagens ao ator. Abalada, não quis dar declarações. "Eu não quero falar. Qualquer coisa que eu falar vai ser trêmula e esquivaâ?.

A atriz Marisa Orth, que encenou com Autran a peça "Seis personagens a procura de um autor", também esteve no velório e lamentou a morte do amigo. "É imensamente lastimável. Ele é das pessoas que deveriam viver 250 anos. Sua contribuição é inestimável para o teatro", disse.

A atriz Marília Pêra também lamentou a perda do colega e amigo. "Minha última visita ao Paulo foi há cerca de um mês e meio. Ele já tinha tido o enfarte, mas ainda pensava em voltar ao palco para seguir com a temporada do Avarento (espetáculo que Autran protagonizava em São Paulo)", contou a atriz, que conheceu o ator aos 18 anos, quando era dançarina do musical My Fair Lady, em que Paulo Autran atuava.

"Quando me despedi, o beijei e tive a sensação de que aquela poderia ser a última vez que o via", comentou Marília Pêra. "Ele sempre gostou muito de mim. Eu prestigiava as estréias dele e o Paulo as minhas. Estou muito triste."

O ator Paulo Autran morreu, aos 85 anos, vítima de um câncer de pulmão e enfisema pulmonar. Ele tinha sido internado nesta quinta-feira no Hospital Sírio Libanês, na Região Central de São Paulo. Há pelo menos um ano, ele era submetido a sessões de radioterapia e quimioterapia. Paulo Autran foi internado já em estado grave. Ele já havia deixado o Sírio Libanês na última terça-feira, após mais uma internação. O ator estava sob os cuidados médicos do médico Drauzio Varella. Segundo nota do hospital, o ator morreu às 16h10. O corpo será cremado às 11h deste sábado.

Nos últimos meses, as internações de Autran se tornaram mais freqüentes. Em junho, ele ficou por dez dias na Unidade Crítica Coronariana do Sírio Libanês. Em abril, foram três dias no hospital por causa de uma infecção.

Presidente Lula lamenta a morte do ator

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a primeira-dama Marisa Letícia divulgaram nota lamentando a morte do ator Paulo Autran. Na nota, endereçada à família de Autran, o casal afirma que o ator proporcionou momentos inesquecíveis no teatro, no cinema e na TV, e que a morte dele deixará um vazio na dramaturgia brasileira. A integra da nota:

Mensagem à família do ator Paulo Autran.

Recebemos com imensa tristeza a perda do nosso grande ator Paulo Autran. Ele nos deu o privilégio de apreciar o seu talento em momentos inesquecíveis do teatro, do cinema e da televisão.
Paulo Autran engrandeceu a dramaturgia e o Brasil com suas interpretações, que fizeram rir, chorar e refletir. Atuou até seus últimos dias e deixará um vazio que muito sentiremos na cena brasileira. Temos certeza que, de alguma forma, ele estará presente como exemplo de talento da arte dramática para os atores mais jovens.

Luiz Inácio Lula da Silva
Marisa Letícia Lula da Silva

Brasília, 12 de outubro de 2007.

Um ator que viveu dedicado ao palco

Paulo Autran nasceu no Rio de Janeiro em 1922. Formou-se em direito, no ano de 1945, pela Faculdade do Largo São Francisco (USP) e chegou a advogar. Começou no teatro dois anos depois, com o grupo Artistas Amadores e a peça "Esquina perigosa". Em 1949, dá inicio a sua longa parceria e amizade com a atriz Tônia Carrero, com "Um Deus dormiu lá em casa (anfitrião)", considerado o seu primeiro papel como ator profissional, com o qual é premiado pela Associação Brasileira de Críticos Teatrais, de acordo com a biografia "Paulo Autran: um homem no palco", do crítico Alberto Guzik.

A partir daí, Autran participa da encenação de vários textos importantes como "Seis personagens à procura de um autor", de Pirandello, "A dama das camélias", de Alexandre Dumas Filho e "Otelo", de Shakespeare. Em 1962, faz "My fair lady" ao lado de Bibi Ferreira. Recebe o prêmio de melhor ator da Associação Paulista dos Críticos Teatrais por "Depois da queda", texto do dramaturgo norte-americano Arthur Miller.

Nessa mesma década participa de um dos principais momentos da cinematografia brasileira, atuando em "Terra em transe" (1967), de Glauber Rocha. A partir do final da década de 1970, participa do musical, "O homem de la mancha", inspirado em "Dom Quixote", e trabalha com diretores conceituados como Fauzi Arap e Antunes Filho. Mais tarde, na televisão, atua em novela de sucesso como "Pai herói", "Os imigrantes", "Sassaricando", além de minisséries como "Hilda furacão" e "Um só coração".

Seu último trabalho de destaque foi a encenação do espetáculo "O avarento", de Molière, traduzido e adaptado por Felipe Hirsch. Algumas sessões tiveram de ser canceladas por causa das internações de Paulo Autran.

Em entrevista à jornalista Marília Gabriela, há dois anos, o ator confessara que, aos 83 anos na época, ainda fumava consideravelmente. "Fumo porque sou burro. Não tenho forças pra largar. Fumo 12, 13 cigarros por dia.â?

No telão, o mais recente trabalho de Autran foi no filme "O ano em que meus pais saíram de férias", de Cao Hamburger, escolhido para tentar representar o Brasil no Oscar, no ano que vem.


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